INFORMATIVO DA ASSOCIAÇÃO OKINAWA KENJIN DO BRASIL

EDIÇÃO n.º 20 - Agosto/2003

Noventa e cinco anos

Noventa e cinco longos anos se passaram desde que nossos primeiros imigrantes pisaram pela primeiríssima vez em terras brasileiras.

Esses imigrantes superaram as inúmeras dificuldades que a dura realidade lhes reservava e, desta forma, foram construindo as bases da comunidade nipônica, tal como a conhecemos hoje em dia.

Honrando essa trajetória de mérito, palavras de homenagem e de felicitação foram proferidas pelas personalidades, quais sejam o presidente da Associação Okinawa Kenjin do Brasil (Okinawa Kenjinkai); o governador da província de Okinawa, Sr. Inamine; o governador do estado de São Paulo, Sr. Geraldo Alckmin; o secretário de comunicação de governo e de gestão estratégica da república, Sr. Luís Gushiken; representante da delegação da Assembléia Legislativa de Okinawa; representante das autoridades municipais de Okinawa (shityouson); representante dos estagiários-técnicos e bolsistas; representante do Junior Study Tour (neto de imigrante que veio no Kassadomaru).

Seguem abaixo as citadas palavras de homenagem:

Palavras de Abertura
~ Chochi Miyagui, presidente da Okinawa Kenjinkai

Neste dia de hoje, em que comemoramos os 95 anos de Imigração Japonesa - um marco histórico, gostaria de ressaltar o quão gratificante é poder estar realizando esse evento na presença de tão ilustres convidados citando, a começar, o Sr. governador Inamine e sua esposa, da província de Okinawa, a delegação da Assembléia Legislativa okinawana, a delegação das autoridades municipais de Okinawa (shityouson), a representação das senhoras. E, da parte do Brasil, contamos com o Sr. Luís Gushiken - secretário de comunicação de governo e de gestão estratégica da república - e sua esposa; representantes do governo do estado de São Paulo e da cidade de S. Paulo; empresariado nacional; órgãos que representam a "Colônia", além de associados da Kenjinkai.
São 95 anos que se passaram após a chegada, no Porto de Santos, dos 781 imigrantes japoneses, dentre os quais 325 provinham de Okinawa. Esse fato histórico se deu no dia 18 de junho de 1908.
A trajetória seguida por esses imigrantes dos primeiros tempos, que chegaram a bordo do "Kassadomaru", foi repleta de adversidades. Caminho espinhoso e tortuoso tal que não há palavras que expressem com a devida precisão o que foi que eles tiveram de enfrentar.
O livro "A História da Imigração Okinawana para o Brasil", publicada por nossa Kenjinkai, é uma tentativa de registrar essa história.
Sabendo-se do perigo representado por doenças fatais locais, próprias do ambiente tropical brasileiro, como a malária e sem ter a quem recorrer, não foram poucas as pessoas que ficaram perdidas para sempre em meio às aterrorizantes condições a eles impostas. Não havia opção outra, senão trabalhar naquelas condições precárias. Viviam no limite entre a vida e a morte.
Felizmente, muitos conseguiram bravamente vencer esses obstáculos iniciais. Prosseguiram adiante, pois tinham consigo o espírito desbravador utinanchu.
Mais tarde, após tomarem consciência da realidade dos fatos no Brasil, decidiram, por eles mesmos, deixarem de ser meros imigrantes "dekasseguis" (trabalho subordinado, com intenção de encaminhar riquezas para o país de origem) para se tornarem imigrantes permanentes, incorporando a ambição de se instalarem definitivamente por aqui, para explorarem economicamente as terras brasileiras. Daí o interesse suscitado em relação a Campo Grande, Santos, as áreas das linhas ferroviárias de Juquiá e Noroeste.
Fundaram-se mais e mais "colônias" e foi lutando contra as medidas restritivas do governo japonês (Ministério de Relações Exteriores), estas, aplicadas indiscriminadamente contra a imigração de okinawanos que se recebiam os novos imigrantes.
No entanto, com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, os japoneses passaram a ser vistos como povo inimigo e sofreram mais hostilidades. Muitos que ainda estavam na costa litorânea brasileira foram obrigados a se afastarem da região, não havendo outra alternativa senão adentrarem para o interior brasileiro, além de terem todo o seu patrimônio confiscado.
Além disso, a derrota do Japão na guerra, em 1945, gerou divergência interna na "Colônia", pois uns defendiam que o Japão tinha saído vencedor, em contraposição àqueles que afirmavam ter sido o Japão derrotado. A comunidade nipônica ficou toda desestruturada.
Com a reabertura do fluxo migratório em 1953, todos tomaram consciência do fato da derrota e, dessa forma, a comunidade nipônica voltou a se desenvolver nos passos certos.
Nossos antepassados, frente a destruição da terra natal, decidiram se organizar numa Associação nacional entre okinawanos, reforçando os laços de união para acolherem imigrantes do período pós-guerra.
Enfim, acabamos de recordar, de maneira simplificada, a história vivida por nossos imigrantes aqui no Brasil, a qual não foi, de maneira alguma, pacífica ou confortável.
Devemos ressaltar, mais uma vez, que esses imigrantes dos primeiros tempos, por mais problemas eles tivessem de enfrentar, mantiveram-se firmes. A firmeza de seu espírito, o esforço, a obstinação, a paciência são atributos especialíssimos. "Ityariba tyoudê" e "omanjin no kokoro" garantiram a união entre eles, sedimentando chão para o desenvolvimento dessa comunidade.
São coisas que não devemos esquecer jamais.
Herdei, pois, dos meus antepassados o coração utinanchu.
Gostaria de terminar estas palavras de agradecimento, desejando que cresçamos nestas terras brasileiras. Rogo também pela saúde e felicidade dos senhores.

Palavras de Felicitação
~ Keiichi Inamine, governador da província de Okinawa

Na presença de ilustres convidados, a citar, o excelentíssimo governador do estado de São Paulo, Sr. Geraldo Alckmin, a excelentíssima prefeita da cidade de São Paulo, Sra. Marta Suplicy e o excelentíssimo secretário de comunicação de governo e de gestão estratégica, Sr. Luís Gushiken, é de meu desejo felicitá-los pela realização desse grande evento.
Ao voltarmos os olhos para o passado, encontrar-se á aquele okinawano desbravador que, com o peito carregado de sonhos e de esperanças veio ao Brasil em busca de novas terras.
Sim. São 95 anos que se passaram após esse okinawano ter registrado seus primeiros passos em terra brasileira.
O que esses primeiros imigrantes encontraram, porém, foi uma realidade hostil, num quadro que reunia toda sorte de dificuldades: diferenças culturais, problemas de comunicabilidade e de adaptação a condições climáticas estranhas a eles. Unidos pelo amor à mesma pátria, combateram tais obstáculos, ajudando-se mutuamente e agindo com sabedoria e coragem. E assim foi sendo erguida a comunidade nipônica no Brasil.
Quero, assim, manifestar o profundo respeito que lhes tenho.
Em tempos mais recentes, o que se pode observar é o enraizamento do modo de viver utinanchu e o florescimento de nossa cultura, legados transmitidos, geração pós geração, a partir daqueles imigrantes pioneiros. Okinawanos participam e colaboram ativamente de diversos da sociedade brasileira, seja na Política, na Economia ou na Cultura.
É motivo de grande alegria e orgulho saber que cooperamos com o desenvolvimento de ambos os países.
O êxito de nossos imigrantes foi possibilitado, em grande parte pela determinação pessoal de cada um, mas também pela boa recepção e compreensibilidade por parte do governo brasileiro e seu povo.
Bom, Okinawa também se encontra em nova fase, passados 58 anos após a 2ª Guerra Mundial, e vem se desenvolvendo de ano a ano. Isso também nos é possível, em grande parte, graças ao apoio de nações companheiras como o Brasil. Novamente, gostaria de, devidamente, expor nossa gratidão.
Ano passado, na ocasião do 30º Ano de devolução de Okinawa para o domínio japonês, foi arquitetado um plano de dinamização de Okinawa. Baseados nesse plano, pretendemos o desenvolvimento de uma Okinawa independente, que fale por si só, e a garantia de uma boa qualidade de vida para seus habitantes.
Estamos, pois, desdobrando-nos e articulando-nos nesse sentido. Assim, esperamos a compreensão e o apoio de todos.
Finalizo, deixando aqui sinceros votos de sucesso aos okinawanos do Brasil e progresso à República Federativa do Brasil, ratificando as homenagens às ilustres pessoas que se notabilizaram pelo distinto trajeto de suas vidas. Felicitações.

Palavras de Felicitação
~ Kokiti Iramina, representante da Assembléia Legislativa de Okinawa

Em representação à Assembléia Legislativa de Okinawa, venho oferecer palavras de felicitação neste evento que comemora o 95º Aniversário da Imigração Japonesa.
Queremos também mostrar o imenso respeito que temos para com a Associação Okinawa Kenjin do Brasil, pelo modo como tem acentuado o desenvolvimento dos descendentes okinawanos dentro da sociedade em geral.
Como é de conhecimento de todos, os primeiros imigrantes okinawanos desembarcaram do "Kassadomaru" em 1908 no porto de Santos.
Depararam-se com muitas dificuldades, como as decorrentes da diferença de linguagem, de estilo de vida e de costumes, as quais, em sendo superadas, foram sedimentando as bases da comunidade nipônica como a temos hoje em dia.
Ao lançarmos nossos olhares sobre a história desses 95 anos, sentimentos de admiração, respeito e gratidão só têm a se aprofundar.
A propósito, constata-se que, atualmente, o Brasil tem 1,3 milhão de habitantes nipônicos e, dentre estes, 10% são de origem okinawana. Esses descendentes okinawanos atuam com destaque em áreas como a da Política, da Economia, da Educação, da Cultura, entre outros. Em prol do desenvolvimento da nação brasileira, vêm contribuindo brilhantemente, notabilizando-se na sociedade brasileira. Essa realidade foi construída a partir dos reiterados esforços daqueles primeiros imigrantes, em meio às condições hostis. É, para nós, motivo de grande orgulho.
Aproveitando-se a extraordinária ocasião desse 95º Aniversário da Imigração Japonesa, os descendentes okinawanos devem reforçar os ímpetos de cooperação, a fim de que o Brasil, o Japão e, mais especificamente, a província de Okinawa possam se desenvolver cada vez mais, havendo relação de companheirismo entre aqueles.
Por parte de nossa Assembléia Legislativa, também, intencionamos concentrar nossos esforços no sentido do desenvolvimento das relações internacionais.
Enfim, gostaríamos de encerrar esses cumprimentos com votos de sucesso à Associação Okinawa Kenjin do Brasil e zelando pela saúde dos associados.

Palavras de Felicitação
~ Masakazu Nakasone, vice-presidente da Associação dos prefeitos de Okinawa, em representação às autoridades municipais (shityouson) de Okinawa

Primeiramente, gostaria de felicitar-lhes pela realização deste evento de hoje em comemoração aos 95 Anos de Imigração Japonesa.
É com imensa alegria e satisfação que compareço aqui, em nome das autoridades municipais de Okinawa, tendo a oportunidade de me encontrar com os senhores.
Foi em 18 de junho de 1908 que o "Kassadomaru" trouxe até o porto de Santos os 325 imigrantes okinawanos (de um total de 781 imigrantes japoneses) para trabalhar na agricultura em regime familiar. Noventa e cinco anos se passaram após esse episódio.
Um fato bastante interessante é que, no Japão, justamente esse dia - 18 de junho - foi fixado como o "dia da imigração", remetendo àquele fato histórico, portanto.
Como deve ser do conhecimento de todos, nossa Okinawa, desde os antigos tempos, sempre foi um povo das águas, tanto que tem sua história de desbravadora dos mares.
Esse espírito aventureiro, que o faz lançar-se para fora, continuou pulsando nos okinawanos da contemporaneidade e, talvez por isso mesmo, tanto antes quanto após a guerra, muitos okinawanos resolveram atravessar o oceano. De fato, aqui no Brasil, os okinawanos representam 10% da população nipônica, o que significa 1,3 milhão de pessoas, conferindo-lhes densidade dentro da própria comunidade nipônica.
Nem seria preciso mencionar que a história da Imigração não foi de todo tranqüila. Os primeiros tempos da Imigração foram anos extremamente difíceis, mas foram justamente o sofrimento e esforço desses anos que deram frutos para o agora. É algo em torno do qual se deve refletir seu significado.
Sustentados pelo que poderíamos chamar de espírito okinawano - "Yui-Máru Seishin"; "Fukutsu no seishin" - os pioneiros da 1ª geração atravessaram uma geração, vencendo sobre as terríveis condições de trabalho lhes imposta. Seus descendentes, da 2ª geração, por sua vez, encarregaram-se de "preparar o terreno" para o florescimento das gerações posteriores.
Com uma história assim às costas, os descendentes das 3ª e 4ª gerações herdaram sua identidade daqueles pioneiros, os quais sempre respeitaram as diferenças culturais.
Hoje em dia, muitos desses descendentes okinawanos estão estabilizados na sociedade brasileira, chegando até mesmo a atuar abrangentemente nas mais diversas áreas e categorias sociais.
É motivo de orgulho e satisfação.
Sabe-se que Okinawa se localiza, em relação ao Brasil, exatamente do outro lado da Terra. Em tempos difíceis para a nossa província, como o período posterior à devastação da guerra, temos a lembrança de termos recebido caloroso apoio por esse país tão longínquo para nós. E mesmo hoje, como neste evento, promove-se sempre uma maior integração dessas duas nações.
O sentimento pela pátria sustentado pelos senhores acabou nos servindo como incentivo e inspiração.
Por isso tudo, gostaria de agradecer mais uma vez.
Merece ser lembrado também que, na ocasião da realização do 3º Campeonato Utinanchu, muitos participantes vinham do Brasil. Encontros emocionantes e cenas comoventes se deram por lá. É nesses momentos que podemos sentir um significado mais profundo das coisas.
Nós somos sim diferentes quanto à nacionalidade, mas somos unidos sob os mesmos antepassados, fazendo-nos irmãos. Irmãos que naturalmente devem reforçar os laços entre si.
Finalizo estes meus cumprimentos desejando infinito sucesso à República Federativa do Brasil e à Associação Okinawa Kenjin do Brasil. Saúde e felicidades para todos.

Palavras de Felicitação
~ Luís Gushiken, Secretário de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica

Hoje se completam 95 anos após os imigrantes terem deixado Okinawa, atravessando o mundo para aportarem aqui no Brasil.
Certamente, os 150 mil imigrantes okinawanos nem poderiam imaginar que um dia chegariam a participar de uma tarefa tão empolgante como a construção deste país, que outrora os acolheram.
O sonho dos imigrantes era de começar uma nova vida ou, até mesmo, de recomeçar a vida nesta terra estrangeira, poder criar seus filhos dignamente.
Nós que somos filhos, netos e bisnetos dos imigrantes que vieram a bordo de navios como o "Kassadomaru", sonhamos em nos fazer pessoas capazes de valorizar o suor derramado e o sofrimento suportado por eles, pessoas competentes para receber a herança por eles deixada, esta tão repleta de significado.
Essa herança consiste na "FORÇA" nascida na experiência e na prática, no "IDEAL", de se fazer com que o Brasil seja cada vez mais conhecido como um país onde o trabalho de homens e mulheres honestos é reconhecido e retrubuído, na "ALEGRIA" de nos sentirmos parte do passado, do presente e do futuro deste jovem país.

Palavras de Felicitação
~Irene Noborikawa (estagiária/2003), representante dos estudantes-bolsistas/estagiários-técnicos

De 1908, quando o Kassadomaru aportou em Santos, até o dia de hoje se passaram 95 anos.
Quero, assim, cumprimentá-los nesta ocasião em que se realiza tão amplamente este evento comemorativo, com a presença de ilustres convidados, a começar pelo Sr. Governador da província de Okinawa, Sr. Keiichi Inamine e sua esposa.
Eu desfrutei da oportunidade de estudar em Okinawa como estagiária-técnica no ano de 2002.
Desde a fundação do sistema de bolsa (custeado pela província), em 1970, foram beneficiados por Okinawa 72 estudantes-bolsistas, 23 estagiários-técnicos e, em 2001, 10 pessoas pelo Junior Study Tour.
Atualmente, na população brasileira, há 150 mil descendentes okinawanos e, dentre essas pessoas, nós fomos selecionados para estudar como estudantes-bolsistas ou como estagiários-técnicos, sob assistência da província.
De como fui recebida calorosamente pelo povo de Okinawa. Das coisas que aprendi na "umarejima" (ilha natal) de meus avós, rodeada por um belíssimo mar e um verde exuberante. Jamais esquecerei; são lembranças que ficarão para sempre guardados em meu coração.
Devemos nossos sinceros agradecimentos à Kenjinkai pela oportunidade nos oferecida e ao pessoal da província de por ter desenvolvido um sistema tão maravilhoso que proporciona tantos sonhos e esperanças.
De maneira que, o possível será feito para que as coisas que aprendemos em Okinawa sejam utilizadas, positivadas na sociedade brasileira.
Os laços que unem Okinawa e Brasil devem se manter reforçados para que esse sistema maravilhoso possa estar continuamente beneficiando-nos.
Completaram-se, então, 95 anos de imigração. Desejamos que os descendentes okinawanos progridam e prosperem cada vez mais neste Brasil.

Condolências
~ Rubens Yoshiiti Yonamine (ex-"embaixador do povo"), neto de imigrantes do Kassadomaru

Há exatamente 95 anos, chega ao cais do porto de Santos o primeiro navio vindo do Japão ao Brasil, o Kassadomaru. No dia 18 de junho de 1908 o Kassadomaru baixou sua âncora.
Setecentos e oitenta e um (781) imigrantes japoneses desembarcaram, sendo que trezentos de vinte e cinco (325) provinham de nossa província, Okinawa. E entre esses imigrantes okinawanos se encontrava também quem veio a ser o avô de minha mãe, Sr.Iha Miyashiro. Tinha apenas 18 anos na época e trazia o peito inflado de sonhos e determinação em sua alma.
De início, trabalhou com agricultura e esteve, a partir de então, em diversos lugares, vindo, finalmente, a se estabelecer em São Paulo.
A bem da verdade, não tenho muitas lembranças desse meu bisavô, mas olhando para as marcas de seus passos, logo percebemos que guardam muita semelhança com a de outros imigrantes: são pessoas que se lançaram para fora de Okinawa em busca da terra prometida.
Era fato sim que o Brasil era um país de extenso território, mas para aí sobreviver muitos obstáculos haviam de ser vencidos. Problemas não faltavam.
Todos os presentes nesta missa sabem muito bem do caminho árido e tortuoso tomado por nossos primeiros imigrantes, conforme os fatos registrados com precisão e detalhes no livro "90 anos após o Kassadomaru", publicado pela Associação Okinawa Kenjin do Brasil no ano passado.
O que podemos perceber, através de uma leitura deste livro comemorativo é o forte sentimento de culto aos nossos antepassados, primeiros imigrantes, comum aos descendentes okinawanos.
Isso pode ser facilmente compreendido se observarmos que, em todas as "shibus" espalhadas pelo Brasil, cultiva-se o comum costume de realizar-se, precedentemente a quaisquer eventos, um ritual de oferenda de nossas mais profundas condolências em memória dos imigrantes dos primeiros tempos.
Cercados por sofrimentos, por vezes inenarráveis, decorrentes das difíceis condições de trabalho, barreira da linguagem, hábitos alimentares diferentes, doenças e saudades da distante terra natal deixada para trás.
Apesar de se encontrarem desamparados, sem desanimar, foram superando esses problemas um a um, motivados pela força de seu espírito utinanchu, fazendo do problema à frente trampolim para o próximo desafio.
Outro ponto admirável é que mesmo tendo optado por um caminho mais difícil ou diga-se insano, não se abandonou essa pessoa que é pai das crianças, é marido. Não. Caminharam juntos, acompanhando-se até o fim de suas vidas. E, pensando em como tudo isso tem grande significado, não posso deixar de manifestar quanto respeito tenho pelos primeiros imigrantes de Okinawa, pelas "anmá" (mulheres) de Okinawa.
As "fujinkais" (associação das mulheres) que temos hoje em dia foram, certamente, fundadas por essas "anmás", pois podemos ver o vulto dessas mulheres de fibra, de coragem. Herdou-se delas essa força, esse vigor, essa perseverança e nem seria necessário dizer que as "fujinkais", assim fundadas, é que são responsáveis pelo sopro de vida, pelo impulso imprimido às atividades da Kenjinkai. Como pedras de fundação.
E, por fim, peço permissão para dizer em termos pessoais que, quando fui designado para a honrada função de "embaixador do povo", fui calorosamente recebido no 3º Campeonato Utinanchu, em 2001, para o qual fui convidado.
Quero aproveitar a ocasião para dirigir meus sinceros agradecimentos, em especial ao Sr. Governador Keiiti Inamine e sua esposa e às delegações convocadas, para as quais agradeço na pessoa do Sr. Masahiko Takara, líder de uma delas.

RELATÓRIO DO JUNIOR STUDY TOUR 2003 - CAROLINA MIDORI NAKAMURA

"Sou Carolina Midori Nakamura, tenho 18 anos, no momento sou estudante, e participei do Junior Study Tour 2003. O Junior Study Tour deixou uma forte lembrança em minha mente. Eu embarquei daqui do Brasil com uma certa insegurança, pois sei falar o básico da língua japonesa e nada sei do inglês, mas quando reunimos para começar o intercâmbio, o pessoal da organização fez o possível para que nos sentíssemos em casa. Ficamos em Okinawa por dez dias (18 a 28 de julho).
Durante o Homestay fiquei na casa da família que só conhecia por fotografia. Nos cinco dias do intercâmbio passeamos por Naha, visitamos o governador, Museu Memorial da Paz onde o Governo de Okinawa fez uma bela homenagem para aqueles que faleceram na Segunda Guerra Mundial, o castelo de Shurijo foi a residência oficial dos Reis do Reino Ryukyu, no Gyokusendô aprendemos um pouco sobre o buyô (dança de Okinawa), em Yanbaru tem o Hiji Ohtaki que é a maior cachoeira de Okinawa, no Ocean Expo Park tinha show de golfinhos, aquário e praia. Durante todo este tempo comemos desde o verdadeiro Okinawa sobá até um tradicional churrasco, participamos de festas, games e fogueiras.
No último dia fizeram uma festa de despedida, onde ganhamos um certificado por ter participado do Junior Study Tour e cantamos, cansamos, choramos e nos divertimos.
Em Okinawa conheci pessoas de línguas e culturas diferentes e aprendi a conviver com todas elas, aprendi mais ainda sobre a cultura okinawa que não é tão diferente quanto ao que me ensinaram aqui no Brasil, mas poucos preservam isso, evoluí um pouco da minha língua japonesa, conheci parentes, mostrei como realmente é o Brasil, fiz vários amigos que até hoje mantenho em contato e realizei um sonho meu que era ir para a terra natal de meus pais algum dia. E com certeza algum dia passarei este magnífico espírito utinanchu para meus herdeiros. Gostaria de agradecer a todos os organizadores do Junior Study Tour, toda esta minha felicidade eu devo a eles."

MENSAGEM DO GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO - GERALDO ALCKMIN

Os imigrantes que desembarcaram do Kassato Maru, em Santos, no dia 18 de junho de 1908, vinham em busca de uma vida nova em um novo país. Mas certamente não imaginavam que traziam as sementes de uma nova vida para o novo país que os acolheu como filhos e mais que isso, como participantes decisivos da enorme evolução social, econômica e cultural que o Brasil alcançou ao longo de quase um século.
Aqueles 791 imigrantes do Kassato Maru deram origem a uma comunidade que chega a sua 5ª geração, os gosseis, com mais de um milhão e quatrocentas pessoas espalhadas por todo o nosso território, influenciados por eles. Enfim, gente perfeitamente integrada à grande família brasileira.
São Paulo se orgulha de ter sido destino daqueles pioneiros e hoje abriga mais de 70 % dos japoneses e seus descendentes. E reconhece a grande contribuição deles para o seu desenvolvimento e seu progresso.
No início, desbravaram sertões e transmitiram sua experiência para o cultivo de nossas terras. Depois, passaram a ter participação ativa em todos os setores da vida brasileira, no comércio, na indústria, na política, nas universidades e centros de pesquisas, nas artes e nos esportes. Sempre como parceiros fieis que, sem renunciar à identidade cultural de seus ancestrais, ajudam a construir nosso Estado e País.
Por todas essas razões, é bastante prazeroso ao Governo de São Paulo, no ensejo das comemorações pela Associação Okinawa Kenjin do Brasil dos 95 anos de imigração, agradecer e saudar a comunidade japonesa e seus descendentes. E, especialmente, dar boas vindas e desejar uma feliz estada entre nós à Sua Excelência Sr. Kenichi Inamine, governador da Província de Okinawa, que nos honra com sua visita.
BANZAI

RELATÓRIO DO JUNIOR STUDY TOUR 2003 - MÔNICA MAYUMI ARASHIRO

"É com grande felicidade em meu coração que estou aqui para contar a minha volta à Okinawa, mesmo nunca tendo ido lá anteriormente. Através do Junior Study Tour 2003, tive uma experiência única que jamais pude imaginar viver. Ao chegar em Naha, tudo era diferente para mim e ao mesmo tempo familiar. Encontrei minha Oba e meus tios da parte da minha mãe e meus tios da parte do meu pai que não se conheciam, mas que graças ao intercâmbio os laços de família se solidificaram.
Quando conheci os outros participantes da minha idade fiquei impressionada. Pois mesmo sendo jovens de outros países tão diferentes, senti como se fôssemos irmãos.
Conhecemos a Prefeitura de Okinawa, a Avenida Kokusai, onde encontramos muitos shissás e todo tipo de alimento feito a base de "Goya", o Castelo de Shuri do qual a arquitetura se impõe, Yanbaru que possui uma fauna rica e encantadora pois é muito valorizada por Okinawa e portanto fortemente preservada, e no Ocean Expo Park vimos peixes coloridos e de todo tipo.
Duas vezes durante o intercâmbio me apresentei cantando e tocando "shamissen" com a música Assadoyá Yuntá. Muitos puderam cantar comigo ou simplesmente acompanhar com palmas o que me deixou muito emocionada. Em uma dessas apresentações convidei outras participantes para cantarem comigo no palco e também dançar. Durante o Homestay meu tio Teruo me deu um presente. Era um "shamissen". E que pertencia a ele há anos e que agora, está sendo para mim um grande incentivo para me dedicar mais a esse instrumento que é meu hobby.
Houve um dia que fizeram uma fogueira, tivemos um jogo entre equipes, em que aprendemos a dançar músicas pop japonesas enquanto que os outros participantes também aprenderam a dançar músicas brasileiras. O entrosamento foi incrível.
O lugar que mais me marcou foi o Parque Memorial da Paz. Recordo-me de uma gruta que simulava um esconderijo de família utinanchu, que, com medo e com fome, ouviam o som de um tanque de guerra americano se aproximando cada vez mais. Dá arrepio e lembramos que nossos antepassados sofreram e batalharam muito para estarmos aqui hoje, portanto devemos preservar todos esses valores.
A festa de despedida foi emocionante, pois sabíamos que provavelmente seria o último dia de todos nós estarmos juntos. Alguns de nós nunca mais iríamos nos encontrar ou demoraria a nos ver novamente. Mas ao mesmo tempo, sabíamos também que nossos destinos foram traçados e que jamais iríamos nos esquecer daquilo que vivemos.
Sou muito privilegiada de ser utinanchu, e cada vez mais tenho mais orgulho das minhas origens. Depois dessa experiência estou com minhas metas mais claras tendo uma visão mais ampla do mundo e das pessoas.
Obrigada a Deus, a todos responsáveis por essa oportunidade, ao governador Kenichi Inamine, à Prefeitura de Okinawa, a todos os organizadores e autoridades, à Associação Okinawa Kenjin do Brasil e à minha família que sempre me apoiou tanto.

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