Histórico
do Fenômeno Dekassegui
1. ATÉ 1990: "A VOLTA À TERRA NATAL"
A década de 80 no Brasil foi uma
época de recessão econômica, devido ao frustrante
plano de redemocratização, o que levou diversos brasileiros
à migração internacional.
Enquanto isso, do outro lado do mundo,
o Japão passava pelo "boom" econômico. As
pequenas empresas recebiam encomendas das grandes empresas montadoras
através do sistema de subcontratação. Nelas
não havia perspectiva de carreira ou ascensão profissional.
Dessa forma, os jovens japoneses que iniciavam seu regresso ao mercado
se recusavam a essas oportunidades. Em contrapartida, os empregados
das empresas tinham em média de 40 a 50 anos.
A partir daí é que tais empresas
começaram a contar com os trabalhadores estrangeiros, ocorrendo
um grande aumento no número de trabalhadores ilegais no Japão.
Grande parte deles, homens provenientes dos paises asiáticos
da Coréia do Sul, China, Bangladesh, Filipinas, Paquistão
e Tailândia. Eram recrutados via Empresas de Turismo ou aliciados
por intermediários. Devido a esta modalidade de engajamento,
os contratos de trabalho não eram claros deixando as pessoas
à margem de benefícios sociais e, mesmo em caso de
acidente de trabalho, não tinham a quem recorrer.
Esses trabalhadores foram denominados dekasseguis.
Palavra de origem japonesa que significa "trabalhar fora de
casa". Antigamente, referia-se aos produtores agrícolas
de cidades afastadas, quando aproximado o rigoroso inverno japonês,
que seguiam em busca de trabalhos temporários nas fabricas
montadoras dos grandes centros japoneses.
Através desse processo migratório,
foram surgindo no Brasil as empreiteiras. Estas empresas serviam
como uma espécie de ponte entre o candidato ao trabalho e
as empresas necessitadas de mão de obra, cuidando da documentação
necessária até as condições de moradia
e trabalho que os possíveis dekasseguis teriam que enfrentar.
Muitas dessas empreiteiras obtiveram uma margem de lucro considerável
com o recrutamento de trabalhadores migrantes.
Em geral, os dekasseguis desenvolvem atividades
não muito aceitas pelos naturais da terra, os quais as designam
como 3K (condições): KITANAI (sujo), KITSUI (penoso)
e KIKEN (perigoso)., além de serem considerados simplesmente
como trabalhadores não qualificados.
São hospedados em alojamentos ou
apartamentos. Alguns optam pelo apartamento ou a própria
empresa fica encarregada disso. Essas moradias ficam localizadas
próximas ao trabalho ou na própria área da
empresa, enquanto as refeições são fornecidas
pela empresa e posteriormente descontadas do salário. Aquelas
que não possuem refeitórios contratam serviços
de restaurante. E quando há hora extra, o empregador oferece
uma refeição gratuita ao empregado.
2. DE 1990 A 1996: "O ELDORADO"
Em 1990, Fernando Collor de Melo assumiu
a presidência do Brasil. Seu plano de governo "Plano
Collor" confiscou a poupança dos brasileiros. Esse governo
de derradeira instabilidade econômica e política reforçou
ainda mais a emigração dos *nikkeis.
* todos os japoneses de primeira geração
(issei) nascido no Japão e que imigraram ao Brasil, nikkeis
brasileiros nascidos no Brasil e naturalizados japoneses através
de registro de nascimento nos consulados japoneses (isseis), os
nikkeis brasileiros de segunda, terceira e quarta gerações
(nissei, sansei, yonsei) independente do nível de sua miscigenação,
e os brasileiros não descendentes de japoneses casados com
nikkeis.
Paralelamente, no Japão foi imposta
a Reforma da Lei de Controle de Imigração do Japão,
em que houve maior rigor no controle da entrada de migrantes ilegais
e, ao mesmo tempo, clara preferência aos descendentes de japoneses,
grande parte composto por brasileiros (a maior colônia japonesa
fora do Japão se encontra no Brasil), uma vez que a relação
de consangüinidade e a suposta proximidade cultural eram consideradas.
O crescimento artificial da economia japonesa
chegou a seu patamar no ano de 1991. Em vista disso, a conscientização
dos nikkeis brasileiros no Japão foi-se alterando de dekassegui
de trabalho a curto prazo permanecendo temporariamente para aqueles
que vinham a longo prazo acompanhados de seus familiares com tendência
a fixação de residência.
O prolongamento do período de estadia
no Japão pode ser provado com a diminuição
da freqüência de retorno ao Brasil, diminuição
na mudança de emprego no Japão e nas medidas tomadas
em relação a educação dos filhos e o
aparecimento de restaurantes e lojas de produtos brasileiros.
3. DE 1996 ATÉ HOJE: "NOVOS
DESAFIOS E NOVAS PERSPECTIVAS
A valorização do yene frente
ao dólar americano e ao marco alemão provocaram o
encarecimento do produto made in Japan. Conseqüentemente, as
indústrias automobilística, eletro-eletrônica,
sobretudo passaram a exibir, nos seus balanços, redução
nos lucros, o que implicou também diminuição
da produção e, como resultado imediato, a redução
de horas extras, no número de turnos e a demissão
de trabalhadores temporários, ou seja, dos dekasseguis.
Mesmo assim, a quantidade desse contingente
no Japão mantem-se num patamar relativamente estável.
Apesar da vida caótica e da situação
trabalhista deficiente da fase inicial , hoje os nikkeis estão
adaptando-se à vida empregatícia - é inevitável
a comparação dos salários recebidos no Japão
como trabalhador de baixa qualificação, na conversão
para o dólar, que ganha-se ainda mais do que o salário
brasileiro em ocupações mais qualificadas - e à
vida junto à sociedade local permanecendo nessa sociedade
e até fixando-se, com maior aceitação tanto
dos japoneses do Japão como dos brasileiros no Brasil. Embora
ainda mantenham um relacionamento supérfluo com os japoneses.
Fonte: ABD - Associação Brasileira
de Dekasseguis
e-mail.: abd@abdekassegui.com.br
Site.: http://www.abdekassegui.com.br |