| Chá
com Shoyu
Silvio Sam
Edú era um jovem ganancioso, ávido para fazer
o máximo de zangyôs (horas-extras) possíveis.
Veio ao Japão pela primeira vez. Não conhecia
nada do solo em que pisava e, no entanto, desde o primeiro
dia na fábrica onde fora alocado, já clamava
por zangyôs. Como nem a língua japonesa falava
direito, recorria sempre a algum brasileiro mais antigo para
que transmitisse aos tantôshas (encarregados) japoneses
o seu ardente desejo.
— Ô Carlos, avisa aí prus “japas”
que quero bastante horas-extras... todas que houver!
— Calma, Edú! Você mal chegou a este país
e já quer se matar assim, ô” Vá
com calma, rapaz... — advertiu-o no primeiro dia o seu,
agora , amigo Carlos.
Daí em diante, Edú e Carlos, vizinhos na mesa
do refeitório, passaram a ocupar o restante do tempo
do almoço em longas conversas. Edú, para variar,
queria sempre saber como atrair cada vez mais zangyôs,
claro.
Edú veio com um objetivo bem determinado: arrecadar
o máximo possível para fazer um belo “pé-de-meia”...
e economizando igualmente.
Sabia também que, dentro desse espírito, na
certa, iria se desgastar muito fisicamente. Seria preciso,
portanto, bolar meios para recuperar logo suas energias. O
mais economicamente possível, claro. Ou seja, de preferência,
sem gastar nada a mais.
Logo no primeiro dia, já percebeu que com apenas aquela
refeição da fábrica, não suportaria
o ritmo de trabalho que pretendia cumprir em sua estada no
Japão. Contaram-lhe que ao lado da cozinha tinha uma
daquelas máquinas que com moedas poderia se comprar
sanduíches... Não! Fora de cogitação
para ele! Tinha de pensar em algo menos dispendioso... de
preferência, de graça, claro!
Atento então em seu forte propósito, logo percebeu
que o chá servido naquele refeitório era de
graça e poderia ser consumido à vontade, sem
limite! “Mas, só o chá não me basta”,
pensou. Deu mais uma olhadela na mesa e viu o vidrinho de
shoyu, lembrando que o mesmo também era servido graciosamente
e à vontade também. “O shoyu vem da soja”,
lembrou. Algum dia alguém lhe contara.
— Batata! — Falou aos seu botões, mas todos
o ouviram.
E para o espanto geral dos japoneses, de Carlos e dos demais
brasileiros sentados nas proximidades, Edú pegou o
vidrinho de shoyu e tacou aquele líquido escuro dentro
de sua xícara de chá. Abismados, todos ficaram
atentos ao próximo passo dele.
— O que você pretende com isso? — de cenho
franzido, Carlos logo lhe perguntou.
— Com isso o quê? — respondeu Edú,
fingindo indiferença.
— Com isso aí, ô Edú, com o shoyu
dentro do chá! — Carlos apontou para a xícara.
— Ah! O chá? Vou tomá-lo, ué! —
e deu um belo gole diante daquele assombrado e miscigenado
pequeno público.
Não teve jeito, Edú teve de explicar para os
ainda incrédulos brasileiros sobre a sua científica
conclusão em relação ao que achava eficiente
mistura. Obviamente, não conseguiu nenhum adepto.
— Cê é doido mesmo, héim, cara!
Assim Carlos encerrou o assunto e tentava voltar a conversar
sobre amenidades com o seu... outros pares. Tentou, porque
logo percebeu que a japonesada ainda olhava com asco a cada
golada que Edú dava naquela mistura estranha. Assim,
tendo a impressão de que alguma conclusão precipitada
poderia ser tirada pelos atônitos japoneses, dirigiu-lhes
a palavra, em nihongô (língua japonesa), num
sorriso meio sem graça:
— ISSO NÃO É NORMAL NO BRASIL, NÃO,
VIU! É COISA DELE! APENAS DELE!! — apontava para
Edú que parecia pouco preocupado com isso.
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