DEKASSEGUI, COM MUITA HONRA!
Silvio Sam, arquiteto e escritor. Autor do livro "Sonhos que de cá segui".
www.silviosam.com.br

Silvio Sam

Existe, hoje, uma certa polêmica entre os trabalhadores brasileiros no Japão, igual a que jáhouve muito tempo atrás, entre os próprios japoneses: a consideração pejorativa ao dekassegui. Atualmente, entre os nativos japoneses, ao menos, não há mais dúvida: dekassegui representa mesmo o que há de pior entre as classes trabalhadoras!!

Antes de discutir a posição brasileira, portanto, é necessário explicar porque os japoneses pensamassim, aliás, originalmente, dos próprios dekasseguis japoneses. Ou seja, o termo "dekassegui" (o correto seria "dekasegi") surgiu muito, mas muito antes do "boom" brasileiro, para denominar um certo trabalhador, morador de regiões longínquas, inóspitas, ou pouco privilegiadas pela natureza, que se deslocava aos grandes centros industriais do país em busca de trabalho. Quase sempre temporário porque, arraigado como era à terra, o japonês dificilmente abandonava o "furusatô" (terra natal). Isto é, não migrava. Em vista disso, era natural que, sendo temporário, a ele ficasse reservado quase sempre os trabalhos não qualificados, aqueles que não necessitavam especialização. Mas tinham características tão marcantes que, "diz a lenda", esse tipos de trabalhos foram taxados pelos próprios japoneses de "3Ks" (kitsui=duro, kitanai=sujo e kiken=perigoso). Daí, no seio da sociedade japonesa das aparências, não foi difícil, depois, com o tempo, associar o termo "dekassegui" ao trabalhador da mais baixa ou nenhuma qualificação.

O caso brasileiro é diferente. Não a mãe-natureza, mas o resultado de sucessivos maus governos é que levou milhares de brasileiros a saírem da terra em que nasceram em busca de uma sobrevivência com mais dignidade. Ou seja, as causas são bem diferentes, mas os princípios são os mesmos dos originais nativos japoneses porque, contra as vontades próprias, afastam-se da terra natal, separam-se de entes queridos e se sujeitam aos serviços "3Ks", que não são indignos, mas não são suas profissões originais. E temporários, porque se vão, com a intenção de retornar... ao menos, no início.

Nada há, portanto, de desonroso ou indigno nessa atitude. Muito pelo contrário. Tanto o japonês quanto o brasileiro podem assumi-la com dignidade pela retidão de seus princípios. Sonoe Shiratori, autor da famosa (e cantadíssima em karaokês) música "Hoshikage no Waltz" com muita sensibilidade, captou o verdadeiro "espírito dekassegui" ao mostrar como um aspirante a dekassegui tenta, com muita dificuldade, explicar à amada (e a si mesmo) que, justamente por amor a ela se vê obrigado a se separar dela e partir para terras distantes (em busca de trabalho). Também pudera, como explicar a absurda situação de que para se sobreviver, seja necessário ter de abandonar a terra em que nasceu?

Em ambos os casos, a condição dekassegui não é uma escolha, mas a falta dela. O lugar de cada um, na verdade, deveria ser em sua própria terra natal, por direito. As saídas, quando houvesse, aí sim, deveriam ser uma opção. Pela fome do saber, por exemplo, e não pela fome em seu sentido literal.

Dekassegui pode ser, portanto, uma condição ingrata, mas é honrosa também, e pode ser assumida sem constrangimento nenhum... com muita honra!

A partir do conhecimento do conteúdo da música "Hoshikage no Waltz", citada acima, dirigida aos honrados dekasseguis japoneses, resolvi fazer uma versão em português, dirigindo, dessa vez, aos também honrados dekasseguis brasileiros. Essa versão pode ser cantada com o mesmo fundo da música original japonesa. Experimente cantá-la:

SONHOS QUE DE CÁ SEGUI

Caminhando numa estrada sem nenhuma direção,
Era assim que eu estava, quando então me decidi:
"Vou partir para bem longe, sem pensar na minha dor".
Não era o qu'eu queria, mas não tive opção.
Não era o qu'eu queria, mas não tive opção.
Só espero que na volta ela ainda esteja aqui.

Estudei e dediquei-me para um dia ser o tal,
Batalhei por um lugar, numa luta desigual:
"Vou partir para bem longe, sem pensar na minha dor".
Injustiça social, foi a causa d'eu partir.
Injustiça social, foi a causa d'eu partir.
E por isso vou embora sem querer sair daqui.

Eu ainda quero crer que um dia voltarei,
Pra ficar com meu amor no lugar ond'eu nasci:
"Vou partir para bem longe, sem pensar na minha dor".
Não estou renunciando, pois aqui é o meu lugar.
Não estou renunciando, pois aqui é o meu lugar.
Sei que vou realizar... "Sonhos Que De Cá Segui".

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