| ESTUDAR, APESAR DE
TUDO
Silvio Sam
Uma das piores conseqüências das crises econômicas
e injustiça social em um país é descobrir
que currículos, muitas vezes, servem apenas para tomar
tempos de leitura dos gerentes dos RH das empresas. "Não
posso pagar o que você merece...", costuma ser,
até com certa ironia, algumas das respostas. Alguns
candidatos acabam tendo de aceitar o que as empresas "podem"
pagar. Outros mudam de profissão, como "Engenheiros
que viram sucos" (Lembram-se?).
Outros apelam para o comércio informal. Outros, ainda,
buscam subempregos em países desenvolvidos... clandestinamente.
"Lá, ao menos, os salários são melhores".
Até dentistas, em número considerável,
conseguiram legalizar, com óbvias dificuldades, suas
profissões em país irmão (Portugal).
Sem contar que milhares de nipo-brasileiros, e afins, foram
ser dekasseguis em país ancestral.
Mas pior que isso tudo, ainda, são as conclusões
de alguns pais em relação a filhos estudantes,
porque partem deles os incentivos para que deixem os estudos:
"Já que não vai servir para nada mesmo,
filho, vá trabalhar". É o que deve ter
ocorrido a muitos dos adolescentes dekasseguis brasileiros
hoje no Japão. Alguns dos quais, até que com
um pouco de idealismo, foram à terra do Sol Nascente
prometendo retomar os estudos na volta. Só que, depois
de uma enorme lacuna longe do ambiente escolar, somado à
realidade brasileira e indiferença dos próprios
pais, a volta à escola acaba ficando na promessa.
O resultado disso tudo é que o país, além
de perder profissionais do mais alto gabarito deixa de formar
outros mais, imprescindíveis para o engrandecimento
de qualquer nação.
E não é só o país que perde sem
estudo. Perde também o próprio, que ao buscar
um país estrangeiro para fazer o "pé-de-meia"
acaba retornando sem nenhuma formação profissional,
e no fim, encontrando dificuldades de readaptação,
quase sempre volta ao estrangeiro.
Apesar de retornar com um certo capital, a crise que envolve
o país desincentiva-o a arriscar qualquer empreitada.
Alguns até que tentam tamanha é a vontade de
permanecer na pátria amada. Mas em país de instabilidade
econômica, como numa loteria, uns acertam, outros perdem
quase tudo que conquistou com muito esforço lá
fora. E, às vezes, até de maneira violenta.
Sair do país novamente acaba sendo a alternativa mais
fácil e garantida. É o que temos testemunhado
ao longo desses anos de movimento dekassegui, em que muitos
vão, retornam, vão e retornam e... vão
novamente. Alguns, vejam só, até já começam
a afirmar desejos de fixarem residência no Japão.
Mas a maioria que continua querendo retornar ao país
acaba se esbarrando naquele tipo de incerteza (estabilidade
econômica e segurança pública).
Apesar de tudo, é preciso se conscientizar de que o
estudo é ainda o melhor investimento para qualquer
país, com ou sem crise econômica... "sério
ou não". Se por por algum tipo de dificuldade
financeira o estudo foi tendo de ser deixado de lado, a retomada
do fôlego (financeiro) agora, em país estrangeiro,
tem de ser aproveitada, ao menos em parte, nessa direção...
do estudo. Ou para si próprio através de de
alguma especialização, aqui ou no Japão...
ou ainda, em sendo "tarde" (nunca é tarde!),
se sacrificando e investindo em prol de uma boa formação
aos filhos, como fazia os nissans (primogênitos) para
que os irmãos mais novos se formassem (Lembram-se?...
ou já ouviram falar?).
Com estudo e capital não pode haver crise que seja
fatal.
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