PÉ DE MEIA NÃO É TUDO
Silvio Sam, arquiteto e escritor. Autor do livro "Sonhos que de cá segui".
www.silviosam.com.br

Silvio Sam

Nesses pouco mais de quinze anos de movimento dekassegui muito se tem discutido sobre o mesmo.

Seminários e palestras têm sido realizados em ambos os países (Brasil e Japão), mas, no fim, as conclusões acabam quase sempre direcionadas aos danos psicológicos causados pelo choque cultural no Japão e separação de famílias, principalmente, no que se refere aos filhos deixados no Brasil.

Trata-se, na verdade, à primeira vista, de situações previsíveis. O novo lugar de morar, do outro lado do mundo, tem cultura completamente diferente e separação involuntária (contra a vontade) de familiares, que eu saiba, nunca foi coisa boa para ninguém. A própria História já se incumbiu de dar muitos desses exemplos. No caso dos nipo-brasileiros, ainda, os exemplos são recentes, frutos da imigração ancestral neste país. É o que causa estranheza, porque, mesmo supondo-se cientes disso, tendo sentido na própria carne, a grande maioria dos dekasseguis brasileiros partiram para lá despreparada para as mesmas conseqüências passadas pelos pais e avós quando para aqui vieram.

Isso se deve, muito provavelmente, à uma realidade que as próprias pesquisas ligadas à problemática têm desconsiderado e que, inclusive, nunca vi abordado naqueles debates: da alienação dos nikkeis em relação às próprias raízes, do desconhecimento por parte das novas gerações das agruras passadas pelos ancestrais após aportarem no Brasil e do quanto sofreram em termos de adaptação ao país para entregar-lhes, de "mão beijada", a imagem de respeito, consideração e honestidade que ora desfrutam perante a sociedade brasileira.

O que isso tem a ver com o que se está discutindo aqui? Muito. Porque faz evidenciar a ausência de diálogo entre gerações, algo muito típico no seio da comunidade japonesa no Brasil. A imagem de bom relacionamento fraternal que passam à sociedade brasileira, até de um certo paternalismo, na verdade encobre a falta do elo íntimo entre as partes, o que acaba justificando esse despreparo para as conseqüências mencionadas no primeiro parágrafo (choque cultural e seqüelas nos filhos). A "incansável dedicação" ao trabalho na busca obsessiva por posição social dos papais nikkeis para a "felicidade" geral da família parece tomar-lhes tempo para perceberem que a felicidade desejada é outra. Isso prova que, muitas vezes, nem mesmo uma boa formação pode ser fundamental para capacitá-los a superar os problemas em questão sem um diálogo útil e franco e com envolvimento e vontade real de ambas as partes em superá-los. Além de... uma cota de sacrifício.

Por isso, vai aí um recado aos dekasseguis no Japão: "Que tal trocarem umas horas de zangyô (hora extra) por algumas horas com a família? Não é bem o desejado, lógico, já que foram para aí em busca do 'pé-de-meia', mas não seria muito melhor esticarem um pouco mais a estada no Japão em prol de um bom relacionamento familiar do que terem de voltar com a família completamente desestruturada? Além disso, como o choque cultural é inevitável, com a família unida e sob o mesmo teto o enfrentamento a todos esses problemas fica bem mais fácil. Ao contrário, com a família separada, a situação se agrava e, pior, para variar, para o lado mais fraco, ou seja, aos filhos, ou aos muitos filhos de dekasseguis deixados no Brasil sob custódia de parentes ou amigos.

Se a separação também é inevitável, essa situação, ao menos, pode ser minimizada se perceberem que cartas também podem cumprir importante papel na relação fraternal, além de custarem quase nada.

Em contrapartida, o não recebimento delas pode, aí sim, custar muito caro, como se tem constatado aqui no Brasil com essas crianças. E não se esqueçam dos presentes que, apesar de mimos muitas vezes interesseiros, nesse caso, em especial, contribuem de maneira extraordinária para marcar a presença do ausente."

Família unida garante "pé-de-meia"... não o contrário.


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