FAMÍLIAS ABANDONADAS
Silvio Sam, arquiteto e escritor. Autor do livro "Sonhos que de cá segui".
www.silviosam.com.br

Silvio Sam

O que leva famílias bem estruturadas a se desintegrarem da noite para o dia? Teoricamente, nada! Não é preciso ser especialista para se chegar a essa correta conclusão. No entanto, algumas famílias "de bem", de dekasseguis, estão sendo vítimas dessa forma de destruição de lares... da noite para o dia. Aparentemente nem Freud explicaria. E nem se tem aqui essa pretensão. Até porque a "minha praia é outra". Mas, lógico, pode-se tentar abrir a discussão e "passar a bola" a quem entende.

O fato é que o quadro geral de brasileiros desaparecidos no Japão tem chamado a atenção também pela presença de pais e mães que partiram para aquele país deixando os demais membros da família no Brasil. Em princípio, levados pelos mesmos motivos da maioria dos dekasseguis, partiram para aquele país em busca de reverter alguma situação desesperadora em que se encontrava no Brasil. E foram sozinhos, sem suas famílias, devidos à condiçao étnica da (o) parceira (o) ou à consideração de que os demais membros da família juntos poderiam transformar-se em complicadores para tal empreitada.

De lares bem estruturados... ao menos aos olhos da vizinhança, e, às vezes, até aos dos próprios membros da família, pai ou mãe segue como dekassegui para o Japão prometendo enviar mensalmente, parte dos soldos conquistados na nova terra. O que acontece é que, depois de algum tempo, somem-se os contatos e o ansiosamente esperado e imprescindível dinheiro, razão da ida ao Japão, deixa também de ser enviado. Alguns, mesmo quando localizados, acabam causando surpresa e estupefação, até aos próprios familiares, por já terem se juntados a outros (as) parceiros (as) naquele país distante. Ou seja, é mais ou menos assim, que tais famílias "bem estruturadas", estão sendo desfeitas da noite para o dia, ou, até com trocadilho mesmo, do Japão (noite) para o Brasil (dia).

O que surpreende não é o fato de existirem pessoas dessa laia nos dia de hoje, de níveis tão desprezíveis. O que surpreende é a quantidade desses casos que acaba nos levando ao âmago da mentalidade nikkey, do esconder emoções e suportar (calado) insatisfações, razões, prováveis, dessa falsa imagem de família bem estruturada. Daí porque, em alguns casos, nem mesmo os próprios membros da família sequer podiam imaginar algum tipo de descontentamento, na relação fraternal, em quem partiu. E por isso, também, se disseram pegos de surpresa. A ida ao Japão, portanto, acabou servindo de válvula de escape para esses que não tiveram a coragem de assumir seus problemas no Brasil, para passar por cima dele, lá longe, fora de qualquer alcance, furtivamente, bem típico deles. Não perceberam que quando não mais existe amor ou satisfação em se conviver com o (a) parceiro (a), feitas todas as tentativas para o entendimento, a separação, gostem uns não gostem outros, é mesmo a melhor solução. Só que tem de ser assumida de frente, com coragem, honestidade e, principalmente, responsabilidade. Justamente o contrário do que tem ocorrido nesses casos em que a irresponsabilidade é até criminosa pelo fato de se incutir confiança, até o último minuto, na hora do embarque, aos que ficaram... para apunhalá-los, depois, pelas costas.

Em alguns casos o estrago já está feito e não há mais possibilidades de se reverter o quadro, mas, aqueles pais, ou mães, que ainda tiverem um pingo de honra, aliás, um dos orgulhos inerentes na raça nipônica, bem que poderiam minimizar a dor dos que aqui abandonaram, no mínimo, com algumas compensaçõe$. Né, não? Não é o ideal, lógico, mas o mínimo, razão original dessa situação.

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