| BALADA
PARA NARAYAMA
Silvio Sam
Em fins do século XIX existia ainda, em algumas regiões
do Japão, uma estranhíssima prática ligada
à cultura popular. Anos difíceis eram aqueles,
em que ainda prevalecia imensa pobreza e fome generalizada
por todo o país, causas, aliás, que levaram
o governo às guerras imperialistas ao continente asiático
e ao intenso "incentivo" à emigração
em massa, razão da vinda de milhares de japoneses para
o Brasil. Pois é, naquela época quando ainda
se fazia a justiça com as próprias mãos,
em alguns vilarejos nipônicos a tradição
determinava que seus moradores, ao atingirem a dade dos 70
anos, teriam de subir ao cume de uma determinada montanha
local, considerada sagrada, para, lá, aguardarem a
morte chegar. Um dos sinais evidentes de que o momento da
peregrinação à montanha chegara era dado
pela perda dos dentes.
Um filme do premiadíssimo diretor Shohei Imamura, entitulado
A Balada Para Narayama (Prêmio Cannes-83) retratou muito
bem esse costume tradicional. Mas Imamura foi muito além.
Procurou mostrar, por exemplo, que apesar do estado de ignorância
e da vida vegetativa que levavam, os moradores de um certo
vilarejo carregavam ainda um forte senso fraternal e comunitário.
A venda de bebês recém-nascidos que ocorria na
época, mais do que contraditório, representava,
aos pais, evitar ter de matá-los (... apesar de exceções),
além de garantir alimento para toda a família
no inverno. A luta pela sobrevivência era terrível,
mesmo assim defendiam com muita honra os costumes. Como a
obasan Orin, que, no filme, aguarda com muita ansiedade, sua
hora de ir embora chegar. Ela sabia o quanto sua partida em
definitivo para a montanha representaria para aquele lar...
uma boca a menos. Por isso, não se conformava que,
apesar da idade, firme e forte como era, ainda mantinha seus
dentes. Então, longe das vistas dos filhos, impaciente,
procurava arrancá-los de todas as maneiras, batendo-os
em pedras ou em paredes. Nos dias anteriores à data
fatídica o filho, Tatsuhei, ficava irritado quando
alguém tocava no assunto porque, mesmo ele, não
se conformava em ter de cumprir a tradição e
levar sua mãe à montanha Narayama. Quando chega
o momento da subida, ao ameaçar que iria contrariar
o costume... ou adiá-lo, a própria mãe,
com a firmeza de sempre, convence-o para que aceite o que
está determinado. É a tradição!!
Mas nos dias de hoje, algo semelhante vem ocorrendo, muito
mal disfarçado, nos asilos para idosos. Originalmente
criados para cobrir as dificuldades que filhos trabalhadores
da era moderna têm para cuidar de pais e avós
fragilizados por idades avançadas ou doenças,
aos poucos esses asilos transformaram-se em Narayamas dos
tempos modernos. Inclusive, agora, para alguns dekasseguis.
Na verdade, algumas dessas instituições até
que são bons lugares para eles (dos males o menos pior)
devido a apoios médicos, vida social (convívio
com outros) e possibilidade de receberem visitas. Em alguns
casos, podem até ser levados para junto dos familiares
à noite ou em fins de semana.
O problema é que, ao contrário do ignorante
Tatsuhei, que não se conformava em se separar da mãe
mesmo que ela representasse uma boca a mais naquela época
de suprema pobreza, alguns dos atuais "não-ignorantes"
homens estão invertendo os papéis e forçando
seus idosos a subirem a montanha para, depois, abandoná-los
lá, de vez.
Alguns desses idosos, hoje, talvez até estejam pagando
por pecados passados que contribuíram para o rompimento
desse vínculo fraternal, mas nada justifica essa atitude
extrema. É preciso "dar um desconto" em função
da falta de formação da maioria deles, conseqüência
da época em que viveram. Ninguém deve merecer
morrer longe de entes queridos como em Narayama, muito menos
em nossos tempos, como se institucionalizadas fossem essas
montanhas.
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