INTEGRAÇÃO
Silvio Sam, arquiteto e escritor. Autor do livro "Sonhos que de cá segui".
www.silviosam.com.br

Silvio Sam

Em princípio, o politicamente correto seria que todos os dekasseguis, no Japão, participassem de todas as atividades comunitárias promovidas pelas associações dos bairros em que moram, independentemente do fato de se radicar em definitivo naquele país, ou não. Até como uma forma de se integrar mais rapidamente com os seus vizinhos nativos japoneses. Entretanto não é o que acontece. Usando a alegação de que a temporada no país do Sol Nascente é curta, a maioria parece não estar muito preocupada empraticar essa tal política de boa vizinhança.

Alguns vão mais fundo para justificar essa postura, lembrando que o período de morada, até mesmo num bairro, chega a ser bastante curto devido às constantes mudanças de locais de trabalho (fábricas) em busca de mais zangyôs (horas extras).

Esquecem, no entanto, que por mais curta que seja a temporada em um bairro, os serviços públicos e comunitários não deixam de ser realizados em seus benefícios... e para seus confortos.

O Japão é um país de serviços comunitários por formação. Com índice de alfabetização atingindo 100%, a tendência dessa população "letrada" é a de fugir, lógico, dos trabalhos considerados sujos, pesados e perigosos (3Ks). Sorte da população dekassegui estrangeira (principalmente a nossa) que, com isso, tem esse espaço a preencher.

O mesmo acontece no que se diz aos serviços de faxina, em todos os sentidos. Desde a própria (do lar, da rua e do bairro em que mora) até a das escolas e a do local de trabalho. São serviços que têm de ser realizados, mas de remuneração cara naquele país que por não ter alternativa tem de encomendá-los a especialistas. Daí, quase não se verem empregadas domésticas em casas de classe média (a maioria da população tem esse nível), faxineiros em escolas ou no trabalho ou mesmo varredores (garis) nas ruas.

A solução, naquele país, foi buscada no trabalho comunitário. Nas escolas públicas, todos os dias, os próprios alunos fazem mini-faxinas nas salas de aulas e, em dias determinados, com a colaboração "voluntária" (convocação) dos pais faz-se uma grande em todo o campus escolar. No trabalho, como os próprios dekasseguis brasileiros já acostumaram a ver e participar, repete-se em outra escala, o ciclo citado no parágrafo anterior... finalizando com o Oosoji (grande faxina) nos fins de ano.

É lógico que, nem mesmo os "letrados" japoneses apreciam ter de fazer esse tipo de serviço (faxina). Nem tanto pelo que representa, mas por não ser a atividade principal pelos quais se formaram, e ainda, na maioria das vezes, ocorrer justamente em seus dias de repouso. Mas como tem de ser feito e para que ninguém seja prejudicado é que se adota o sistema de mutirão. No caso do trabalho, como o dia de faxina é pago como hora-extra, os brasileiros ainda vão... e querem fazê-la.

Mas o mesmo não ocorre no caso da faxina comunitária do bairro em que moram. Alegam estar cansados da semana exaustiva de trabalho (como se os nativos japoneses também não estivessem) e fogem delas (faxinas) aproveitando o precedente de poderem pagar uma taxa quando não puderem atender. Esquecem que (não apenas aos japoneses) em serviço comunitário o pagamento da taxa é o que menos importa. O que faz a diferença é a presença física, moral e psicológica, com todos participando igualmente para o bem comum.

Na verdade, os brasileiros ainda não perceberam que, mais do que a integração com os vizinhos, esse trabalho voluntário poderia significar a derrubada da barreira a essa discriminação dos japoneses em relação a eles próprios, de que tanto reclamam.

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