Gaijin...? Japonês...?
Silvio Sam, arquiteto e escritor. Autor do livro "Sonhos que de cá segui".
www.silviosam.com.br

Silvio Sam

Um dos itens de maior insatisfação entre os dekasseguis, no Japão, é o da dualidade de identidade. Ou, para ser mais exato, da nenhuma identidade! Pois é, no Brasil, ser tratado de "japonês" já não agradava, incomodava e, como que acuados, "aceitava-se", mas o choque veio mesmo ao pisar em terra ancestral e ser chamado de "gaijin" (estrangeiro) pelos que tinham mesmo sangue e traços físicos idênticos. Era o cúmulo! E a conclusão, ainda pior: apátrida!

Com o estereótipo "japonês" dado pelos brasileiros e "gaijin" pelos nativos japoneses, a impressão que se tinha era mesmo a da não nacionalidade.

Quem, de outra etnia, ouve esse fato pela primeira vez, imagina-o algo pequeno demais para se preocupar, e um exagero da parte dos dekasseguis. Mas os dekasseguis mais sensíveis, quando o sentiram na própria pele, ficaram bastante abalados e se manifestaram revoltados com tal tratamento preconceituoso (?) até da parte dos japoneses.

A bem da verdade, numa análise nem tão pouco profunda, mesmo com o sangue nas veias a favor, o tratamento de "gaijin", no Japão, até que é justo e coerente, porque o verbete, literalmente, significa pessoa que veio de fora. Forasteiro! Isto é, aquele que, por não ter nascido do lugar, não conhece cultura, costumes e, às vezes, até a língua local. Ou seja, exatamente o que os dekasseguis são... sem exceção... no Japão: forasteiros. Estrangeiros. Gaijins.

Ora, se o tratamento "gaijin" está correto, resta-lhes então, com muita justiça, defenderem a condição de serem chamados de "brasileiro", e não "japonês", ao menos na própria terra em que nasceram. O que, se bem refletido, não parece ser tão difícil assim.

No início da imigração japonesa no Brasil, lá pelos idos das primeiras décadas do século passado, que os primeiros imigrantes, e mesmo a primeira geração nikkey (nissei), fossem assim chamados, até que se podia aceitar. Talvez, até mesmo a segunda devido à formação advinda dos pais e fortemente consolidada pelas associações (kaikans) fechadas da comunidade que os levavam a obstruírem influências externas e vice-versa, que acabavam gerando as famosas "panelinhas" dentro de qualquer agrupamento sócio-cultural (como nas escolas, nos esportes, etc.) Na verdade, historicamente, os próprios nikkeis sempre deram razões de sobra para receberem esse tratamento diferenciado de que tanto detestam.

Ainda, nos dias atuais, vêem-se "panelinhas" nas escolas, shoppings (Shopping Paraíso), etc., e tem até bailes "exclusivos" da comunidade.

Algumas das alegações de certos pais, ou até mesmo de alguns jovens - "racistas", por sinal - são as de que não devem se "misturar" com "brasileiros" para não receberem "más influências" (sic). Além disso, não se sabe bem porque, mas muitos nikkeis carregam um estranho complexo de inferioridade que os levam a procurarem seus afins em qualquer aglomeração, talvez como forma de auto-proteção. Mas que acabam contribuindo para o distanciamento com o seu entorno "brasileiro". E assim por diante.

É preciso lembrar que, a partir do momento que se adota, para sempre, uma nova terra, ou seja, se imigra, no caso dos dekasseguis, o que se espera do forasteiro é a busca da integração plena com a sociedade que o acolheu, tanto nos deveres e obrigações, quanto nas atividades sócio-culturais. No caso dos nikkeis no Brasil, basta romper, de vez, a "bolha". O que não significa que se deva olvidar raízes. Até porque, no intercâmbio cultural, ganha o Brasil... e ganham os próprios.


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