| Radicar-se...
ou não
Silvio Sam
Dos pioneiros imigrantes japoneses que vieram ao Brasil,
100% pretendiam retornar à pátria tão
logo fizessem seus "pés de meia". Ou seja,
induzidos pelas propagandas enganosas de dinheiro fácil
que diziam brotar nas "árvores dos frutos de ouro"
(café), tinham vindo com o verdadeiro espírito
do dekassegui.
A dura realidade, o choque cultural, alimentação
diferente, etc., etc., foram tão inesperados, que houve
reações de todos os tipos, inclusive trágicos.
Os prazos de retornos à terra amada tiveram de ser
repensados. Como conseqüência, o distanciamento
físico-espiritual que acabou criando sentimentos de
insegurança quanto à readaptação
a pátria, em caso de volta, e os nascimentos dos filhos
começaram a prendê-los, ainda mais, à
nova terra. Daí, passar da condição de
dekassegui para a de imigrante foi um passo. Resultado: já
estamos no 95º ano da imigração japonesa
no Brasil.
É lógico que, no começo, o choque cultural
foi enorme. Mas num país de povo caloroso por natureza
e já multi-racial na época, o entrosamento com
a sociedade brasileira foi um pouco difícil, mas ocorreu
sem muito problemas. A questão alimentar idem, mas
em terra tão privilegiada pela Natureza... o intercâmbio
foi espontâneo. A adequação de certos
produtos japoneses trouxe até benefícios para
ambos os lados. Hoje, a comunidade japonesa é parte
integrante e fundamental na sociedade brasileira.
Agora, ocorre o mesmo com alguns dekasseguis brasileiros que
começam a afirmar intenções de fixar
residência naquele país. Razões das mais
justas e compreensíveis são alegadas: planejamento
orçamentário familiar seguro, escolas para os
filhos, segurança pública, qualidade de vida,
poder aquisitivo até para supérfluos, etc. Itens
esses, todos, incomparavelmente superiores aos do Brasil.
Mas dificilmente são citados: satisfação
espiritual, relacionamento interpessoal, descontração
social, etc., o que nos leva a pensar que, mais do que escolha
por paixão ao novo país, a falta de crédito
ao próprio é que tenha sido o fator que está
pesando na balança.
Nada contra. Muito pelo contrário. A adoção
de um novo país para se viver é sempre muito
saudável e estimulante, porque provoca, naturalmente,
comparações bilaterais que nos levam a refletir
sobre atitudes e decisões a tomar em nossas vidas.
Mas a diferença entre "escolher um país
para morar" e "melhor ficar onde está"
é abissal.
Naquela, estuda-se, previamente, cultura e costumes antes
de se decidir e nesta, tem-se de aceitá-los. Concorde
ou não.
Ambos, primeiros imigrantes japoneses no Brasil e dekasseguis
brasileiros no Japão, enquadram-se na segunda hipótese.
Nossos ancestrais, por não poderem retornar nos períodos
planejados e, agora, os brasileiros dekasseguis, por temerem,
repletos de razão, a fragilidade do nosso país.
O alerta fica por conta dessa forma de adoção
que me obriga a lembrá-los (aos que agora pensam em
se redicar no Japão) de que, os nossos ancestrais vieram
a um país novo e já acostumados com imigrantes,
enquanto que os nossos brasileiros estão num país
de cultura milenar e população, praticamente,
de nativos. A satisfação material pode ser plena,
mas a espiritual, no momento, está travestida pelo
convívio exclusivo com patrícios (comunidades
brasileiras). Ou seja, radicar-se de vez tudo bem, mas nunca
se esquecer de que, isso significa ter de se entrosar com
toda a vizinhança (principalmente com a nativa, japonesa),
aceitando suas regras e obrigações comunitárias.
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