Entrevista
Alice Satomi
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| Alice
Satomi, época do Tarancon
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Ela foi a primeira brasileira a produzir um trabalho acadêmico
sobre um tema relacionado à cultura de Okinawa no Brasil.
Sua tese de mestrado em música pela Universidade Federal
da Bahia, “Gotas de Chuva no Telhado”, de 1998,
é um trabalho que fala sobre a música de Ryukyu
no Brasil. De acordo com Alice, o titulo é uma alusão
ao surgimento do shaminsen, alaúde típica de
Okinawa, inspirado no gotejar da água da chuva que
cai de um telhado, o “tum, tum, tem...”.
Nele, a professora Alice Satomi conta sobre a difusão,
organização e os impactos sócio-culturais
da musica folclórica, preservada e transmitida pelos
imigrantes a seus descendentes, em terras brasileiras.
Ela não parou por ai, porque acaba de concluir mais
um trabalho acadêmico, “Dragão confabulando”,
que lhe garantiu o titulo de Doutora em Etnomusicologia, também
pela UFBA.
O novo trabalho, também inédito no Brasil, aborda
a musica clássica japonesa, o koten, estudando especificamente
o “koto”, cítara japonesa de treze cordas.
Mais uma vez, o titulo do tema foi cuidadosamente escolhido.
Dragão confabulando é também uma antiga
alusão a este instrumento musical. Apesar de ter sido
criada em São Paulo, a distância não foi
nenhum empecilho para a pesquisadora, que trabalha como professora
na Universidade Federal da Paraíba, e teve seu objeto
de estudo concentrado em São Paulo, onde se situa a
maior colônia nipo-brasileira.
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Tarancón durante apresentação
musical
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Desta vez a pesquisadora não aborda a musica de Ryukyu
(Okinawa) com exclusividade; seu trabalho aborda a música
koten, gênero clássico, de maneira mais ampla,
ou seja, o koten feito pelos nipo-brasileiros.
Porém a música de Ryukyu feita no Brasil, através
das varias agremiações que congrega, teve relevante
participação em seu trabalho. Alice fala um
pouco dos trabalhos que certamente contribuirão muito
para a cultura de Okinawa, para os brasileiros, e também
para sua vida artística, já que Alice fez parte
do saudoso Tarancón, grupo musical de grande prestígio
nos anos 70 e 80, época da grande efervescência
social, política e cultural. Neste período,
a música brasileira produziu obras das melhores qualidades
e que tiveram fundamental importância para “fazer
a cabeça” da juventude da época.
Okinawa.com.br
- O seu trabalho “‘As Gotas de Chuva no
Telhado’ Música de Ryûkyû em São
Paulo” (1998), é até nosso conhecimento,
o primeiro trabalho acadêmico sobre a cultura de Okinawa
no Brasil. O que levou a senhora produzir este trabalho?
Alice Satomi
- A minha dissertação de mestrado não
é o primeiro trabalho acadêmico sobre a cultura
musical de Okinawa no Brasil. Entre 1981 e 1991, vieram dois
acadêmicos: Dale Olsen, da Califórnia, e Shûhei
Hosokawa, de Tóquio. Olsen (1983), especialista em
música latino-americana e música japonesa, realizou
um mapeamento geral “Japanese Music in Brazil”
enfocando as músicas tradicionais koten e minyô,
de Naichi e Okinawa. Hosokawa (1992), especialista em cultura
musical de massa, enfocou as melodias urbanas e o fenômeno
karaoke (recentemente ele publicou um artigo sobre uma banda
peruana de okinawanos). O meu trabalho seria, então,
o primeiro apenas na esfera da pesquisa brasileira.
O tema “música nikkei no Brasil” foi despertado
graças aos meus professores do curso de mestrado em
Salvador. A profa. Angela Lühning, me apontou a importância
dos estudos sobre minorias étnicas em contexto urbano.
O orientador Manuel Veiga (casado com issei, cujo sobrenome
de solteira era Kadena) contava muito sobre sua experiência
de campo com a música Tenrikyô nos EUA, me sugerindo
estudar a música japonesa na Bahia. Em princípio
relutei bastante, pois vir morar no nordeste realçou
a minha brasilidade e tinha em mente pesquisar a tradição
oral nordestina. Finalmente a profa. Kilza Setti me convenceu
revelando que se fosse mais jovem gostaria de pesquisar a
música dos seus ascendentes. Isso me mostrou sutilmente
que pertencendo de alguma forma ao grupo investigado é
possível obter maiores insights.
Okinawa.com.br
- A senhora tem descendência
de Okinawa? Existe alguma ligação familiar,
ou qual a relação da senhora (família)
com a comunidade okinawana no Brasil (por quê Okinawa)?
Alice Satomi
- Meu pai era de Wakayama-ken e veio com seis anos em 1918.
Minha mãe é nisei descendente de Fukuoka e Hiroshima,
imigrantes em 1919.
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Tarancón durante apresentação
musical. fotos do álbum gracias a la vida.
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Minha empatia pela comunidade okinawana pode ser de épocas
não registradas pela memória consciente, mas
a relação afetiva mais remota que guardo é
a da família Kina, do Ipiranga. Eles foram morar na
mesma casa onde nasci, logo que minha família se mudou
para a V. Mariana.
Quando eu tinha nove anos meu primo paterno casou-se com Ivone
Arata, de Santos. Foi uma festa tão inesquecível
que eu cheguei a registrá-la em uma redação
no primário. A segunda epígrafe inicial do meu
trabalho “As Gotas de Chuva do Telhado...” é
a imagem simbólica do sanshin retida na memória
da minha prima. Nessas ligações, dos tempos
de infância, a referência é a de espontaneidade,
de animação e, sobretudo, de afago.
Por ser latino-americana, sempre me identifiquei com povos
oprimidos e injustiçados. Depois que vim morar no nordeste
aguçou a minha curiosidade por povos marginalizados
e explorados na sua ingenuidade e boa índole. Após
delimitar o assunto para Música Japonesa no Brasil,
seguindo as pistas de Olsen sondei três temas: música
clássica japonesa, a música gagaku, da igreja
Tenrikyô, e música de Okinawa.
Nos três lugares a receptividade foi ótima. Entretanto,
os braços mais estendidos foram os de Okinawa, na pessoa
de Kiku Gushiken, presidente do Fujinkai da AOKB, em 1996.
Ela me apresentou aos profs. Nobuo Agena, Naohide Urasaki,
e ao jornalista Marcelo Chinen, que foram as pessoas adequadas
para começar a pesquisa.
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Tarancón durante apresentação
musical. fotos do álbum gracias a la vida.
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Em 1978, quando estive pela primeira vez no Japão,
morei em Tóquio por oito meses, mas fiz questão
de conhecer além das terras dos ascendentes, lugares
como Kyoto, Nara, Nikko, Kamakura, e os extremos Hokkaido
e Okinawa. Conheci Okinawa em pleno verão e o clima
tropical, o calor e a musicalidade do povo me fizeram sentir
em casa. Todos os lugares exerceram um fascínio pela
sua beleza e conservação, mas, ideologicamente,
as cidades mais marcantes foram Hiroshima e Naha. Hiroshima
pela sua história lamentável da bomba atômica,
que ficou como uma lição do passado. Mas em
Naha, a presença ruidosa dos aviões norte-americanos
era coisa do presente.
Okinawa.com.br
- Na sua opinião
qual a principal característica da musica de Ryukyu,
existe algum fator que identifica (som, ritmo, etc.)?
Alice Satomi
- O som do sanshin, a introspecção do koten,
o ritmo alegre e contagiante do minyô. A entonação
vocal com a garganta apertada mostra a grandiosidade de um
povo que, mesmo demonstrando uma elevada atitude de conformismo,
as dominações e ambições de outros
povos não calaram a sua voz mais majestosa, a preservação
de suas origens, formas de pensar e de expressão. Para
mim, a principal característica da música de
Ryûkyû é a heróica resistência
cultural.
Okinawa.com.br
- Como a senhora enxerga
a atual musica de Ryukyu no mundo, qual seu nível de
influência na world music, se é que ela existe?
Alice Satomi
- No meio dos 80s até simpatizava com o rótulo
“world music” que vi numa prateleira de loja de
CDs e encontrei um disco interessante da egípcia Ofra
Haza. O canto é autêntico, mas com roupagem ocidental.
Eu achei então que o termo se aplicaria às iniciativas
como: a dos Beatles com Ravi Shankar, as do Paul Simon com
Black Mambazo (grupo vocal da África do Sul) e Olodum,
ou até a do Sting com nossos índios. Mas não!
No hemisfério norte “world music” é
toda música feita no hemisfério sul ou das culturas
exóticas do Médio e Extremo Oriente. No primeiro
mundo, Chico Buarque e Milton Nascimento são considerados
“world music”. Hoje, não simpatizo mais
com o rótulo pois cheira ao mofo da hegemonia e preconceito
dos países ricos.
Como não me interesso muito, não posso dizer
que conheço a música de Ryûkyû nessa
esfera. Mas parece que Ryûkyû tem sorte, pois
o processo de descoloração, ou branqueamento
(a pretensa “universalização”),
tem estado nas mãos dos próprios japoneses.
Conheço apenas o trabalho do The Boom, Rinken Band,
Nenes Ashibi (?), mas o que gosto realmente de escutar, ultimamente,
é um CD chamado “Island”, de Hae, que adquiri
como disco “new age” (daqueles que têm até
incenso na sua embalagem).
Okinawa.com.br
- E qual a sua impressão
sobre a Musica de Ryukyu feita pelos brasileiros?
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Alice Satomi (centro), Yukihide Kanashiro
e Shushanna Lorenz, Pesquisadora da Universidade de
Nova York e tambem da Univ de Pittsburgh, no Mezanino
da Ass Okinawa durante Audição de Koten.
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Achei bastante diversificada a música de Ryûkyû
praticada pela comunidade de Okinawa em São Paulo.
Tudo está bem distribuído e apropriado, por
faixa etária e geração: os issei, da
terceira idade, praticam koten em uma atitude saudável
(ao elaborar a perda) de alimentar a nostalgia da terra natal,
e o fazem com tanta avidez que chega a ser mais degustado
e autêntico, talvez, do que na terra de origem; os nisei,
adultos, se dedicam mais ao minyô ou karaoke, como se
fosse um aperfeiçoamento do sotaque ancestral; as crianças
sansei em diante são iniciadas com o taiko coreografado,
um estímulo identificável com o entorno da terra
de acolhimento. São etapas tão bem engendradas,
que podem levar ao ideal da prática mais elaborada
e refinada do koten para quando todos (nisei e sansei) estiverem
aposentados. A impressão mais forte que guardo da música
de Ryûkyû, no Brasil, é que ela significa
– além de continuidade, resistência, disciplina
e organização (presente em outras comunidades
étnicas) – a preservação da verdadeira
coesão e respeito aos mais velhos. E essa é
a chave de estabilidade emocional de uma coletividade. Embora
os estilos estejam, praticamente, compartimentalizados por
faixa etária, não se vê o abismo de gerações.
Num mundo cada vez mais tecnicista e individualista, acho
a coesão, integração e o espírito
coletivo realmente emocionante quando presencio as suas festas.
Aplaudo também o estímulo aos talentos jovens
da comunidade como o Leandro Satoru Saito, Vitor Ôshiro
e a banda Ton Ton Mi. A partir deles poderia frutificar um
trabalho musical original, de uma miscigenação
inédita Ryûkyû + Brasil e menos artificial,
ou seja, sem imitar as culturas dominantes.
Okinawa.com.br
- A senhora teve o
privilégio de ajudar a fundar e fazer parte de um importante
grupo musical dos anos 80, o Taráncon. Qual seu papel
no Tarancon que(ais) instrumento(s) tocava(m)?
Pois é, me sinto privilegiada da vida me oferecer umas
viradas fantásticas. No início dos anos 70,
a soma da ditadura militar e os hormônios com sede de
contestar resultaram num certo ativismo musical. Tarancón
significou para mim a construção ideológica
e que deu sentido para uma carreira musical que tendia à
alienante mesmice de tocar música européia ou
com cara de. Tive então que abandonar alguns hábitos
ditos “burgueses” e, assim, o piano ficou um pouco
de lado. Desvinculando, também, da partitura, descobri
o gosto em tirar tudo de ouvido como meus colegas do grupo.
Comecei tocando flauta-doce e, à medida que íamos
adquirindo os instrumentos andinos, o Emílio (líder
do grupo até hoje) e eu íamos explorando o toque
dos instrumentos de sopro (siku, tarka, kena, chokela, pinkillo).
Mais importante que o instrumento era a espontaneidade e o
trabalho em grupo dos arranjos. Ouvíamos os discos
e cada um saía pegando e ‘arranhando’ algum
instrumento. Daí existia uma mobilidade tamanha que,
cheguei a tocar instrumentos de percussão (bombo, caixa,
etc) e cordas (violão, viola de 10 cordas, charango,
baixo e piano).
Okinawa.com.br
- A senhora chegou
a dividir palco com Milton Nascimento, Chico Buarque, entre
outros, como foram as experiências, fale um pouco da
passagem no grupo?
Pelo amadorismo do trabalho musical do Tarancón, a
surpresa foi a dimensão alcançada em 1975. Um
dos momentos mais inesquecíveis foi o show no Tuca
onde o teatro abarrotou e havia um outro tanto (1.500 pessoas)
do lado de fora quase derrubando o portão do teatro.
O singelo e belo título de Violeta Parra “Gracias
a la Vida” circulando pelos principais jornais do país,
provocava um orgulho imenso.
Com o fenômeno da censura, havia poucos caminhos para
a música: ou se diziam as coisas por metáfora,
ou nas entrelinhas, como Chico Buarque e Milton Nascimento
faziam com maestria. E de repente um grupo jovem como o Tarancón
podia contestar a realidade cantando em outro idioma. É
a única explicação que encontro para
essa casualidade inesquecível de tocar no mesmo dia
que os nossos gurus musicais. Foi em 1976, no primeiro aniversário
da Versus, revista muito perseguida também pela censura.
Okinawa.com.br
- A senhora não
sente saudades do palco?
Seria hipócrita se não assumisse a saudades
do palco, onde você tem a resposta imediata do seu público.
Mas a sala de aula veio suprir um pouco da necessidade de
compartilhar e formar opiniões. E a vaidade acadêmica
pode suplantar a vaidade artística com aquela pretensão,
ou ilusão, em deixar algo para a posteridade, ao invés
de colher glórias apenas durante nossa efêmera
passagem pela Terra. O pesquisador quando escolhe um grupo
para estudar, vai entrando sem ser convidado e pode causar
estragos. Mas, vejo que, na maioria das vezes, a mera presença
do pesquisador pode contribuir para a manutenção
das tradições do grupo. E isto seria mais gratificante
do que aplausos.
Okinawa.com.br - A
comunidade acadêmica e artística, convencionou
classificar, tanto como a música latina, gênero
do Tarancon, quanto a música de Ryukyu, como musica
étnica. Qual é a importância da musica
étnica para o mundo (pessoas)?
Será? Só se for no mundo artístico, ou
melhor, no mercado fonográfico (me lembrei que o Mawaca
se auto-denomina ‘grupo de música étnica’).
Na comunidade acadêmica “música étnica”
se refere ao repertório dos imigrantes ou das minorias,
pois etnicidade é “a condição de
pertença a um grupo étnico” (Glazer 1975)
ou “quando se estabelecem as categorias ‘nós’
e ‘eles’” (Seyferth 1986).
No caso do Tarancón, o têrmo “música
étnica” pôde ser aplicado, isoladamente,
para algum boliviano, argentino ou chileno, que integrou o
grupo, quando tocava a música da pátria deles.
Não para o grupo ou repertório na íntegra.
Mas, pensando bem, ideologicamente, havia a categoria “nós”,
ibero-americanos, x “eles”, anglo-americanos.
No caso da música de Ryûkyû, enquanto no
Japão é o repertório de minoria (uchinanchu
x naichijin), no Brasil é repertório também
de imigrante, isto é, minoria da minoria.
Nesse ângulo, a importância da música foi
respondida na quinta pergunta, pois acho que é diferenciada
por gerações. Na cidade de São Paulo,
onde o capitalismo selvagem extinguiu, praticamente, a tradição
local, acho que tocar a música ancestral é uma
atitude saudável de aceitação da identidade
e de preservação da integridade humana. Parafraseando
o sr. Mário Teruya, é preferível se identificar
com as coisas mais simples e puras do que o complicado e impuro
mundo contemporâneo (mas, aceitando a coexistência,
sem sectarismo).
Okinawa.com.br
- Até há
pouco, o tema globalização assombrava o mundo,
havia promessas de universalização e homogenização
econômica e cultural, entre várias outras coisas.
Hoje vimos que os efeitos são bem menores que se imaginavam.
Não só na musica étnica, como em outros
gêneros, muitos trabalhos, fora de seu tempo e contexto,
continuam ainda vivos. Na sua opinião, será
que a música de Ryukyu, conseguirá ainda trilhar
ao longo dos tempos? Apesar de um pouco prematuro, considerar
a musica de ryukyu como “atemporal”, seria algum
tipo de exagero?
Eu não acredito na dicotomia globalização
X cultura local. Acho que globalização, enquanto
imposição de capital, é modismo, dura
pouco, e até reforça a identidade cultural quando
se amadurece. Lembro-me que fiquei preocupada quando conheci
um primo no Japão, que tomava o café da manhã
separado dos seus pais e avós porque ele preferia "toast
com orange juice" ao invés de "asa gohan".
Era o “moderno” substituindo o “tradicional”.
Quando revi o primo, vinte anos depois, lá estava ele
comendo misoshiru de manhã, enquanto seus filhos, salada
com maionese.
Objetos modernos podem tornar obsoletos os tradicionais, mas
aquilo que envolve cultura, não. O DVD pode substituir
o vídeo, mas não o cinema. Quando surgiu a TV
temia-se que o rádio iria acabar, o cinema acabaria
com o teatro, o vídeo com o cinema e assim por diante.
O japonês então tem uma tremenda capacidade de
domesticar os produtos de fora. Tobin (1992), dá um
exemplo sobre ofurô: incorporou-se encanamento, azulejo,
eletricidade, mas a essência do prazer do banho permanece.
Na música a mesma coisa, um tempo se incorpora guitarra,
baixo, sintetizadores, (o executante pode mudar a cor e forma
dos cabelos, dos olhos, nariz, peito) com clichês ou
roupagens variando de pop, jazz, new age, world music, ethnic
music, mas aquilo que não varia é a essência
musical que permanece. Justamente, pelo viés capitalista,
o que é moderno deve enjoar, se tornar passageiro.
Quando se amadurece a avidez pela volta às raízes
pode vir em dose redobrada.
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