Joe
Hirata fala um pouco sobre Karaokê, Dekassegui e Okinawa
Primeiro brasileiro a ganhar um concurso de karaokê
na NHK, maior emissora de televisão japonesa. Joe Hirata,
fala um pouco sobre sua carreira. A trajetória, da
difícil vida de simples dekassegui, até chegar
aos palcos. Joe, que também morou em Okinawa, se diz
admirador dos “uchinanchu”, como ele próprio
diz. Em outubro cantará pela primeira vez em Campo
Grande, Mato Grosso do Sul. No dia 19 de novembro, Joe Hirata
fará show em São Paulo, no Bunkyo. Leia um pouco
da conversa com o artista.
Okinawa.com.br
- Como você iniciou na música?
Teve algum incentivo da família?
Joe Hirata - Comecei aos oito anos de idade.Meu
pai era diretor do departamento de canto de Maringá,
no Paraná. Minha irmã, também, já
cantava, um ano antes que eu, e vivia viajando e ganhando
“roupas novas”. Também queria ganhar “roupas
novas”. Um dia, minha mãe me disse: Se você
cantar, poderá ganhar e viajar bastante! Não
deu outra. Comecei a cantar e não parei mais...
Okinawa.com.br
- Você ganhou um importante
concurso de karaokê no Japão. Conte-nos um pouco
sobre isso.
Joe Hirata -
Foi o concurso NHK Nodojiman, promovido pela rede de TV estatal
NHK. Na verdade não ia participar. Um amigo me inscreveu
e acabei “entrando” no concurso. Fui passando
por uma serie de seletivas até chegar a tão
disputada final. No total, foram 80.000 candidatos. Foi a
primeira vez que um estrangeiro venceu este concurso. Representar
o Brasil foi motivo de muita honra e orgulho. Desde criança
sonhava em cantar no NHK Hall, onde ocorre o KOHAKU UTAGASSEM.
Ao pisar no palco já me sentia bastante satisfeito,
o que viesse depois disso era tudo lucro. Nunca imaginei vencer
esse concurso. Sempre acreditava que jamais dariam um primeiro
lugar a um brasileiro. Ao anunciarem meu nome, não
sabia fazer outra coisa senão chorar, chorar e chorar.
Chorei durante 30 minutos, sem acreditar no que estava acontecendo.
Lembro-me de ver a Miyako Harumi chorar, comovida com minha
reação. Este ano faz dez anos que venci. Lembro-me
de tudo como se fosse ontem...
Okinawa.com.br
- Sua vida mudou após o concurso?
Joe Hirata -
Após a tão sonhada vitória, teve uma
festa com os diretores da NHK, várias pessoas importantes
e compositores famosos. Muitos foram falar comigo, dar cartões
e fazer propostas para gravar. Porém, já estava
decidido que, mesmo antes de entrar no concurso, voltaria
ao Brasil, como havia prometido para minha família.
Continuei durante seis meses trabalhando normalmente, dedicando
integralmente ao trabalho. Fazia cerca de 140 horas extras
por mês, sem descansar nenhum dia. Trabalhava na fábrica,
em um karaokê como barman e cavava poços artesianos
nos finais de semana. Nem parecia que tinha sido o campeão
do Japão. Antes de voltar ao Brasil, a Glória
Maria foi até meu alojamento, me entrevistou para o
Globo Repórter. Acho que não curti muito o status
de ter sido o NIPPON ICHI. Somente depois de um tempo é
que parece ter “caído” a ficha.
Okinawa.com.br
- O que é fazer karaokê
no Japão e fazer no Brasil existe alguma diferença
substancial?
Joe Hirata
- Eu cresci dentro do karaokê no Brasil. No Japão
participei do NAK (Nihon Amateur Kayo Sai) que é um
dos maiores grupos de karaokê amadores local. Participei
de muitos concursos até chegar as finais em Tókio.
Também era convidado para fazer shows nos concursos.
No Japão existe um projeto de incentivo mais profissional,
os critérios de julgamento e o conceito de quem vence
os concursos são um pouco diferentes daqui. Lá
o que conta é a interpretação e a sensibilização
do público, só critérios técnicos
não tem muito peso. Por exemplo, nem sempre, um ótimo
cantor enka vencia um bom cantor POP. Tudo dependia de como
era feito, a empatia e a dinâmica do interprete. Os
jurados viam o potencial artístico e não só
o potencial técnico do cantor.
Okinawa.com.br
- Você foi revelado pela música
japonesa, hoje assumiu um gênero musical próprio,
com muita coragem, superando um antigo estereotipo nikkey.
Por que a música sertaneja?
Joe Hirata -
Eu tenho muito orgulho, de ter passado toda minha vida cantando
músicas japonesas, porque foi aí que criei toda
a minha base vocal e técnica de palco. Durante minha
adolescência, cresci em Maringá, ouvia muita
música sertaneja. Como meu timbre vocal é mais agudo,
me identifiquei com o estilo. No começo tive que estudar
e adaptar ao estilo sertanejo, que é totalmente diferente
de interpretar que a música japonesa. Tive a oportunidade
de passar por excelentes professores, que me ensinaram as
diferenças. Até hoje, procuro fazer aulas para
me aperfeiçoar. Hoje, amo a música sertaneja
e tenho conquistado pouco a pouco o público que curte
esse estilo.
Okinawa.com.br
- No inicio, como você viu
a reação do público com sua nova roupagem
musical?
Joe Hirata -
Toda mudança de paradigma é encarada com espanto
e receio. Tenho sempre procurado me aperfeiçoar, tentando
um estilo sertanejo da melhor forma possível. Como
temos o visual diferenciado, precisamos ser duas vezes melhor
que um brasileiro para sermos aceitos como iguais. Isso eu
tenho procurado mostrar através dos meus shows, cantando
músicas de grandes interpretes e de alta dificuldade vocal,
também animando o público, dançando e
mostrando um lado extrovertido.
Okinawa.com.br
- Em seu primeiro CD, um trabalho
totalmente sertanejo, existe duas composições
próprias, você pode falar um pouco sobre estas
duas músicas?
Joe Hirata -
Na verdade seria meu segundo trabalho, o primeiro foi o Single
LEMBRANÇAS e o segundo foi o álbum SONHO DE
UM BRASILEIRO. Eu não me considero um compositor. Mas,
tive inspiração em dois importantes momentos
de minha vida. Na música LEMBRANÇAS, a compus
quando ainda estava trabalhando na linha de montagem da Sony,
em 1988, num momento em que estava com muitas saudades, da
minha família e do Brasil. Eu ficava cantando na linha
de produção e depois corria nos intervalos e
pegava um papel para não esquecer da letra. Eu mandei
uma fita pra minha mãe no Brasil e disse que um dia
gravaria esta música, ela ficava mostrando para todo
mundo com grande orgulho, dizia minhas irmãs. Dois
anos depois, estava para voltar ao Brasil e buscar minha mãe.
Um mês antes de voltar ela faleceu. O choque para mim
foi muito grande. Sempre quando canto esta música,
dedico a ela e digo que cumpri com minha promessa. A segunda
música SONHO DE UM BRASILEIRO, fiz em parceria com
o compositor Adilson Campos. Nesta letra homenageio os dekaseguis,
contando a minha história e mostrando que chegando
no Japão a gente acaba descobrindo a verdadeira identidade,
somos nikkeis com orgulho, mas somos acima de tudo BRASILEIROS...
Okinawa.com.br
- Recentemente você participou
da Festa do Peão de Barretos, onde inclusive pôde
participar da gravação de uma canção.
Como estão os planos para seu novo trabalho? Alguma
nova gravação em vista?
Joe Hirata -
Este ano comemoro 10 anos desde que venci no NHK Nodojiman,
estou preparando meu show comemorativo que será no
Bunkyo dia 19 de Novembro e também estarei doando o
meu troféu da NHK para o Museu Histórico da
Imigração Japonesa no Brasil.
Além disso, estou começando a montar meu novo
repertório para meu próximo trabalho que pretendo
lançar ano que vem. Ainda estou em fase que repertório
e estratégias...
Okinawa.com.br
- Como não podia deixar de
ser, sabemos que você morou em Okinawa. Você pode
falar um pouco dessa experiência?
Joe Hirata -
Tive a oportunidade de morar em Okinawa durante 40 dias. Assim
que cheguei ao Japão fui direto para lá. De
cara eu presenciei o TAIFU (furacão) e fiquei impressionado.
Depois que passou o susto, fui conhecendo a ilha e aí
percebi que estava num paraíso. As praias são
lindas. Morei em frente a Manza Beach e em Manza Mo. Fiquei
encantado com a hospitalidade e calor humano dos uchinanchu.
Gostava de ir muito aos karaokês (pra variar). Quando
começava a cantar, os clientes começavam a puxar
papo. Depois que falava que eu era brasileiro, era uma festa
só. Eles começavam a pedir comida e servirem
bebidas. No final nunca deixavam eu pagar a conta. Acho que
a cada 3 karaokês que ia, 2 eu não pagava nada.
Pude fazer muitos amigos. Era tudo muito divertido. Andava
na Kokusai Doori, em Naha, e as senhoras vinham todas alegres
e puxavam conversa. O povo de Okinawa é muito hospitaleiro
e a comida também é maravilhosa. Resumindo,
só tenho ÓTIMAS lembranças de Okinawa
e tenho muita vontade de voltar um dia...
Okinawa.com.br
- Nesse tempo que você ficou
em Okinawa, o que você pode ouvir ou aprender?
Joe Hirata -
Eu tinha um amigo que gostava muito de cantar as músicas
de Okinawa. Infelizmente, não pude aprender o dialeto,
a não ser o TYA GANDYU ??? Gosto muito de ouvir o The
Boom, Shima Uta, entre outros.
Okinawa.com.br
- Mesmo as influências musicais
não sendo correlatas. A música, ou mesmo a cultura
de Okinawa tem algo a acrescentar em seu trabalho?
Joe Hirata -
Tenho acompanhado o grupo de Taiko de Okinawa em vários
eventos. Admiro muito ver a forma como eles estão mostrando
a cultura tradicional, através de uma linguagem mais
moderna. Isso, também, já vinha na minha cabeça
há algum tempo. Da importância de nos atualizarmos
na música no mundo de hoje. Tenho um projeto que tem
a mesma essência, que o grupo de Taiko de Okinawa está
fazendo. Porém, voltado a música sertaneja,
que canto hoje. Vendo como estão fazendo, os grupos
taiko de Okinawa, vejo que é possível fundir
o tradicional com o contemporâneo, o ocidente com o
oriente...isso é muito interessante!
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