Entrevista - José Yamashiro

Considerado um dos expoentes do pensamento nikkei no Brasil, José Yamashiro, escritor e jornalista, produziu inúmeros trabalhos pioneiros dentro da literatura brasileira. Seus trabalhos sobre assuntos japoneses, tornaram-se até hoje, verdadeiras referências no mundo acadêmico. Dentro das circunstâncias e contextos de seu tempo, José Yamashiro sempre esteve na vanguarda, abrindo caminho a vários outros nipo-descendentes.

A título de ilustração, ele foi um dos poucos nikkei voluntários na Revolução de 1932. Profissionalmente, como jornalista, José Yamashiro, teve uma carreira de sucesso. Atuou nos jornais Nippak, Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo), na revista Visão (o semanário mais importante na época), além de dirigir as revistas Mundo Econômico, da Fundação Coopercotia e Indústria e Desenvolvimento, da Fiesp.

Filho de imigrantes japoneses, pode ser considerado um verdadeiro self made man. Experimentou não só a vida laboriosa das frentes agrícolas nas lavouras de Cedro (região do vale do Ribeira) passando ainda por Campo Limpo (região norte da capital paulistana), como conta em sua obra Trajetória de Duas Vidas, além de ter sido um dos primeiros nikkeis a trabalhar diretamente com personalidades da vida pública como Jânio Quadros etc. Hoje, com 89 anos de idade, completamente lúcido e bastante prestativo, José Yamashiro, conta de forma bastante envolvente um pouco de sua vida.

Okinawa.com.br: Sua obra Pequena História do Japão, de 1950, é considerada um verdadeiro marco na literatura nipo-brasileira, pois até então, nenhum brasileiro ou nikkei havia produzido algo nessa área. O que levou a produzir este trabalho?

José Yamashiro: Sempre me interessei por assuntos sobre o Japão, principalmente durante o período em que era estudante. Porém, naquela época havia muito pouca referência para ser consultada, os trabalhos eram todos em japonês e inglês. Depois da Segunda Grande Guerra, com a derrota do Japão, meu interesse pelo país e minha curiosidade em entendê-lo se tornaram ainda maiores. Além disso percebi que muitos nipo-descendentes demonstravam a mesma preocupação, o que me levou a escrever o livro.

Okinawa.com.br: Havia algum tipo de incentivo?

José Yamashiro: Como a publicação foi logo em seguida ao final da Guerra e o Japão havia perdido, não houve interesse por parte de editoras ou entidades. O livro foi então editado com recursos próprios.

Quem me ajudou bastante foi Kenkichi Shimomoto, da Cooperativa Agrícola de Cotia, que comprou 1000 dos 2000 exemplares que foram impressos.

Okinawa.com.br: Como foi a aceitação desse trabalho pela opinião pública, comunidade nipo-brasileira e outros?

José Yamashiro:
Somente depois de algum tempo, com a reconstrução do Japão e com o fato de o país sediar as Olimpíadas de 1964, é que o assunto "Japão" começou a chamar a atenção. A partir daí, houve um interesse mais amplo em todo o mundo sobre esse país que surpreendia o mundo com sua rápida recuperação e desenvolvimento econômico. Somente a partir de então, consegui publicar outros trabalhos. Inclusive pude reeditar a Pequena História do Japão.

Okinawa.com.br: Como o senhor começou a carreira de jornalista?

José Yamashiro:
Iniciei minhas atividades como jornalista no Nippak Shimbum, na seção de língua portuguesa, substituindo Jorge Midorikawa. Aliás, foi o primeiro jornal japonês da colônia a ter uma seção em língua portuguesa. Fui redator de língua portuguesa do Nippak de 1937 a 1940.

Okinawa.com.br: Em toda sua carreira, qual foi o momento de maior dificuldade?

José Yamashiro: Com a Guerra, o governo de Getúlio Vargas determinou o "fechamento" dos jornais em língua estrangeira que circulavam no país. Com isso nossas atividades tiveram que ser suspensas. Depois da guerra, houve interesse em reabrir o jornal. O mesmo grupo fundou então o Jornal Paulista.

Okinawa.com.br: O senhor trabalhou em diversos jornais e revistas de grande circulação, como foram essas passagens?

José Yamashiro: No inicio de 50, substituí por dois anos Hideo Onaga na Folha da Manhã, em 54 fui para a revista Visão onde atuei como repórter até chefiar o Departamento Editorial da Revista. Naquela época o Brasil passava por sérias transformações estruturais. Com o Programa de Industrialização implementado por Juscelino Kubichek (50 anos em 5), o cenário brasileiro passava por transformações nunca antes experimentadas. Para Visão, o desafio foi ainda maior. A revista, inaugurou um novo conceito de jornalismo na imprensa escrita, fugindo dos padrões das revistas da época. Para mim tudo aquilo foi muito promissor, pois exigia novo aprendizado a cada momento.

Okinawa.com.br: O senhor, juntamente com o Hideo Onaga, editou uma revista especializada voltada à economia, o Mundo Econômico. Como foi essa experiência?

José Yamashiro: Deixei Visão e com Hideo Onaga criamos a revista Mundo Econômico, onde atuei como editor. Na época, tornou-se uma das melhores revistas de economia do pais. De circulação nacional, a revista inaugurou uma proposta séria na imprensa escrita voltada para a área econômica. Tínhamos como colaboradores diversos economistas importantes, entre os quais Roberto Campos. Infelizmente, devido ao seu elevado custo, o Mundo Econômico não pôde se manter por muito tempo.

Okinawa.com.br: Depois do Mundo Econômico onde o senhor atuou?

José Yamashiro: De 70 a 80 trabalhei como editor da revista Indústria e Desenvolvimento, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Foi outra experiência muito importante em minha vida.

Okinawa.com.br: Qual o trabalho (obra) que o senhor considera mais importante? Ou pelo qual o senhor tenha uma consideração especial?

José Yamashiro: Considero todos os meus trabalhos importantes, pois em cada um deles sempre houve muita dedicação e esforço de minha parte. Mas posso confessar que Trajetória de Duas Vidas mereceu um carinho especial. Certa vez, meu pai me revelou que era uma vontade sua que o seu diário chegasse ao conhecimento de seus descendentes. Nesse livro, pude cumprir essa tarefa, o que foi para mim muito gratificante.

Okinawa.com.br: Seu livro Okinawa, uma Ponte para o Mundo se tornou a principal referência dentro da literatura brasileira sobre assuntos relacionados às coisas de Okinawa, influenciando ainda outros trabalhos, inclusive o nosso site. O que levou o senhor a produzir este trabalho?

José Yamashiro: Sempre tive muito interesse e curiosidade pelos assuntos referentes à ilha de onde meus pais vieram. Sempre ouvia muitas histórias e lendas. Depois do incentivo que partiu de dentro de minha família (iniciado por uma tia de minha esposa), tomei a decisão de tentar fazer algo que pudesse trazer algum conhecimento aos descendentes de okinawanos como eu. Para mim este trabalho também foi muito importante.

Veja as obras publicadas por José Yamashiro

 

 

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