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Entrevista - Massataka Ota
Masataka
Ota, 47 anos, natural de Tomigusuku, Okinawa, é um
homem engajado na luta pela propagação da paz.
Atualmente, Ota administra seu próprio comércio
e promove palestras na sede do Movimento Paz e Justiça
Ives Ota e em escolas, entre outras atividades filantrópicas.
O okinawano, bastante religioso e ligado à família,
acredita que só através do perdão o ser
humano pode tornar-se verdadeiramente feliz. Bastante emocionado
e esperançoso, o comerciante conta-nos de que forma
superou as próprias dificuldades, engajando-se na missão,
deixada a ele pelo filho Ives.
Okinawa.com.br:
Como surgiu a idéia do movimento?
Masataka
Ota: Em 1997,
no mesmo ano do acontecimento da fatalidade com meu filho.
No mês de setembro, comprei o jornal e li a notícia
de que o governo pretendia reduzir a pena de crimes hediondos
de 30 para 15 anos. Fiquei indignado com isso. Daí
surgiu a idéia do movimento. Decidi que eu iria me
engajar nesta causa, além de promover a paz. Conseguimos
um total de cerca de dois milhões e seiscentas mil
assinaturas, colhidas no Brasil e no exterior. Tivemos uma
vitória política. Na verdade, eu queria a aprovação
de uma lei que previsse a prisão perpétua agrícola
para crimes hediondos. Infelizmente, até agora, ainda
não obtive resultados nesse sentido. Por isso continuo
lutando.
Okinawa.com.br:
Quais são os objetivos da instituição
e que tipos de atividades são ministradas?
Masataka
Ota: O objetivo
é ajudar, material e espiritualmente, os menos favorecidos.
Dar um apoio a eles, mostrando que a violência não
pode fazer parte de seu cotidiano, senão ela se torna
algo "natural". Para isso, eu e minha esposa, Keiko
Ota, realizamos palestras na sede da instituição,
às quintas-feiras, a cada quinze dias, e também
em escolas, principalmente em regiões mais carentes.
Essas palestras são direcionadas a pessoas que tenham
sofrido algum tipo de violência. Os palestrantes são
padres, pastores, da Seicho-No-Iê. Aqui há livre
arbítrio para todos.
Okinawa.com.br:
E de que forma isso tem ajudado as pessoas?
Masataka Ota:
Os resultados são bastante satisfatórios.
Assistindo às palestras, as pessoas sentem uma espécie
de conforto em relação ao que sofreram. As crianças
e adolescentes também modificaram bastante o comportamento
delas. Inclusive, fazemos uma campanha de desarmamento nas
escolas. Para cada arma de brinquedo, damos outro brinquedo
em troca. Quando se desarma uma criança, estamos desarmando
sua alma. Quando ela pega numa arma de brinquedo, isso fica
em seu pensamento. E quando ela crescer, acredito que essa
idéia permaneça em sua mente. Outra grande vitória
do Movimento da Paz e Justiça é essa 6ª
Missa em Memória do meu filho. Com ela, conseguimos
juntar uma carreata de 32 ônibus, jipeiros, motoqueiros,
caminhoneiros, além de muitas caravanas, a doação
de cinco mil camisetas e dois trios elétricos.
Okinawa.com.br:
Como tem sido essa luta atualmente? Não há
horas em que dá vontade de desistir de tudo, principalmente
com a violência nos dias de hoje?
Masataka Ota:
Uma vez eu tentei me afastar um pouco de tudo isso.
Porém, um tempo depois, eu me via envolvido com o movimento
novamente. Parece que uma força maior me traz de volta
para cá. Aqui não tem desânimo! Tudo se
tornou muito natural para mim. Encaro isso como uma missão.
Meu filho escolheu-me para propagar a paz. Nós temos
uma ligação muito forte; tudo o que eu faço
de bom retorna para ele.
Okinawa.com.br:
O senhor acredita em reencarnação?
Masataka Ota:
Sim, acredito. Quatro meses após a fatalidade
ocorrida com meu filho, um conhecido meu havia dito que tinha
sonhado com o Ives e que, neste sonho, minha esposa estava
grávida. Contei o que aconteceu, mas ela tinha dito
que não estava grávida. Um dia depois, minha
mulher acordou-me e disse: "Acho que estou grávida!".
Alguns meses depois, nasceu a Ises. Ela tem as os mesmos sinais
que o Ives: uma marquinha no pé e outra no nariz. Certo
dia, quando minha filha estava mais crescida, estávamos
passeando no shopping quando, de repente, ela vira para mim
e fala: "Ladrão queria dinheiro do papai, mas
me levou, né? E papai veio me pegar no céu!".
Isso tudo minha filha contou espontaneamente, porque eu não
contaria uma tragédia daquelas para uma criança
tão pequena. Com certeza ela não entenderia.
Além desse episódio, muitos outros parecidos
também ocorreram. Por isso acredito em reencarnação.
Okinawa.com.br:
O que mudou em sua vida após todos esses acontecimentos?
Masataka Ota:
O que aconteceu com o Ives fez com que eu mudasse completamente
o modo de vida que levava. Eu era bastante materialista, deixava,
inclusive, em certos momentos, a família em segundo
plano. Hoje já não penso assim, pois aprendi
a ser mais humilde, a respeitar os outros e, principalmente,
a perdoar. Com o passar do tempo, o movimento cresce. A missa
já foi uma grande conquista para mim também.
Posso dizer que sou completamente realizado e feliz por tudo
que tenho e faço.
Okinawa.com.br:
O senhor gostaria de deixar alguma mensagem para as
pessoas?
Masataka Ota:
Jesus veio a Terra para ensinar a perdoar há
dois mil anos atrás, mas parece que o ser humano ainda
não captou essa mensagem, porque ele continua com ódio
e rancor no coração. O Ives escolheu-me como
pai para ajudar a propagar a paz e sinto muito orgulho disso.
Defendo a prisão perpétua agrícola, não
a pena de morte. Se um inocente for condenado, ou mesmo alguém
humilde, pelo menos terá a chance de ter sua liberdade
de volta. Acho que um criminoso, por mais dinheiro que tenha
para conseguir pagar um bom advogado e se ver livre da prisão,
nunca ficará com a consciência tranqüila,
mesmo estando em liberdade.
Colaboração: Yone Shinzato, graduanda
em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação
e Filosofia, Comfil, da PUC- SP
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