Entrevista Kazufumi Miyazawa

Miyazawa concede entrevista exclusiva ao site Okinawa

Kazufumi Miyazawa, pode ser considerado um artista realmente afinado com o Brasil e Okinawa. Pacifista e “brasilianista”, na musica, o líder da banda The Boom, que já gravou inúmeros trabalhos tendo Okinawa e Brasil como tema, chega a São Paulo para apresentação de show, com única apresentação.
Shima Uta, o maior sucesso da banda, vendeu 1,5 milhões de copias, números para causar inveja em qualquer popstar norte-americano, maior mercado fonográfico do mundo. Miyazawa já declarou seu amor pelo Brasil em vários de seus trabalhos, adora a musicalidade brasileira, a brasilidade, e como não poderia deixar de ser, também se diz apaixonado por Okinawa e sua gente. Bastante descontraído, Miyazawa, nos conta um pouco de sua historia e de suas paixões.

Okinawa.com.br - Você ainda continua com a banda The Boom? Como você equaciona a relação banda/carreira solo?

Miyazawa - Sim ainda continuo com a banda. Este ano o The Boom completa 15 anos. Tanto que eu fiz dois shows comemorativos, em Tóquio e em Osaka, onde tivemos um público de dez mil pessoas em cada um dos eventos. No mês passado, lançamos nosso 11º álbum. Agora em setembro, durante três meses, faremos uma turnê pelo Japão. Teve uma época em que tive a intenção de promover uma turnê internacional com a banda, mas devido a uma serie de dificuldades, na época, não tivemos condições de realizar. Foi então que surgiu a idéia iniciar um trabalho solo, já que, também, sempre tive a necessidade de desenvolver alguns trabalhos mais “pessoais” dentro da musica. Nos momentos em que as atividades do “The Boom” estão tranqüilas, procuro fazer meu trabalho solo. Gosto muito do que faço, quero ainda continuar com os dois trabalhos por muito tempo.

Okinawa.com.br - O maior sucesso da banda lhe rendeu 1,5 milhões de copias vendidas. Ela e’ executada em vários lugares do mundo. Na Argentina serviu como tema da seleção local na ultima Copa. A musica certamente ficara eternizada em todo mundo. Como você compôs o “Shima Uta”?

Miyazawa - Certa vez, quando fui para Okinawa, tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas e pude conhecer historias que realmente tocaram o fundo do meu coração. Não tinha conhecimento da dimensão da Segunda Guerra em Okinawa. Alias, a maioria dos japoneses desconhecem as verdadeiras historias da Guerra, dos estragos que tudo causou. Ter conhecimento acerca dos acontecimentos e sofrimentos, visitar os locais onde aconteceram bombardeios ou morreram muitas pessoas, tudo isso foi para mim foi um grande choque. Fiquei muito sensibilizado com os horrores de tudo o que aconteceu. E, ouvindo as histórias dessas senhoras, dos sobreviventes, resolvi fazer para eles alguma coisa como músico. Foi então que criei a canção. E, nessa época, eu não tinha nem idéia que ela se tornaria tão conhecida assim. A mensagem que eu gostaria de passar era que as pessoas deixassem de guerrear.

Okinawa.com.br - Além desse fator histórico, quais são os outros elementos de Okinawa que lhe servem como fonte de inspiração?

Miyazawa - Okinawa foi paixão à primeira vista. No início, tudo de Okinawa, para mim, era maravilhoso. Eu gostava de tudo, tanto é que até aprendi a preparar a comida de lá (Okinawa) em minha casa (risos)... Okinawa é um conjunto de ilhas que pertenceu a vários países, depois voltou de novo a pertencer ao Japão. Mesmo com tantas adversidades e imposições sócio-culturais, os uchinanchu tiveram a força de preservar toda essa cultura e unidade. O que eu mais gosto, são as pessoas de Okinawa, a força que elas têm, a alegria, a musicalidade, tudo e’ muito contagiante. Nos encontros do Skeai Uchinanchu Taikai, Encontro Mundial dos Okinawanos, realmente impressiona ver a força dos uchinanchu que estão espalhados pelo mundo.

Okinawa.com.br - Além de Okinawa, você já produziu vários trabalhos com influencia da musica brasileira. No Brasil, existe algum gênero em particular que você se identifique ou acha mais curioso?

Miyazawa - Na verdade, não existe um ritmo específico de que eu tenha preferência especial; eu aprecio tudo. É claro que não conheço de tudo, pois, cada região possui uma musicalidade e um ritmo diferente. Posso passar a vida toda procurando, mas acho que nunca vou conseguir captar todos os estilos que existem no Brasil, tamanha variedade musical existente aqui.

Okinawa.com.br - No Brasil, além da música, o que também serve como fonte de inspiração para você?

Miyazawa - As pessoas, as relações entre elas, o ambiente, a musicalidade, tudo isso me fascina. A música faz parte do cotidiano dos brasileiros. Tem-se uma musicalidade dentro desse dia-a-dia e isso é uma grande fonte de inspiração.


Okinawa.com.br - …e no cenário brasileira, o que te mais te chama à atenção?

Miyazawa - Aqui, as pessoas recebem muito bem o estrangeiro, não há barreiras. Não é necessário se adaptar a uma situação para ser aceito, pois todos recebem de braços abertos. Talvez, pelo fato do Brasil ser um país multirracial, formado por imigrações de todos os lugares, faz com que eu também sinta que faça parte desse ambiente. Eu venho de uma sociedade que é super agressiva porque as pessoas precisam sobreviver e tem um sistema já montado e nós, japoneses, temos que “entrar” dentro desse sistema. Aqui eu me sinto livre, sinto as alegrias do ser humano e, inclusive, as tristezas. Eu posso me repensar como ser humano e as pessoas me aceitarem como eu sou, sem ter barreiras.

Okinawa.com.br - Qual a sua pretensão, ainda, dentro da sua carreira, que você tem vontade desenvolver? Tentará buscar novos elementos na “world music”? Algum gênero em especial?

Miyazawa - Evidentemente tenho a pretensão de nunca parar de conhecer novos sons e ritmos. A minha vida inteira eu pretendo fazer isso. Da música que eu conheço atualmente, é muito pouco perto da diversidade que existe no mundo todo. Quando eu era mais jovem, ouvia uma música ou ritmo, que me identificasse, já procurava conhecer melhor, tocar... Hoje em dia é um pouco diferente. Primeiro, procuro conhecer esses ritmos, seleciono-os e só então penso em como posso utilizá-lo.

Okinawa.com.br - A exemplo do Ryuichi Sakamoto, você gostaria de fazer algum tipo de parceria, por exemplo, com o Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros?

Miyazawa - Já tive a oportunidade de me encontrar com o Gilberto Gil em um festival na Alemanha. Também tive a oportunidade de conversar com o Caetano. O Ryuichi Sakamoto, o Gil e o Caetano são veteranos e têm mais ou menos a mesma idade, são da mesma geração. Claro, gostaria muito de fazer um trabalho em conjunto com qualquer um deles. Mas eu prefiro, talvez pela facilidade, é de gravar com músicos da minha geração.

Okinawa.com.br - Você enxerga algum paralelo entre Brasil e Okinawa, seja nas músicas, nas pessoas, na cultura, etc?

Miyazawa - Em ambas as culturas há a proximidade entre música e cotidiano. Quando as famílias se encontram, aqui no Brasil, todos sempre cantam uma música, conhecem uma canção famosa, fazem até roda de samba ou de viola. Em Okinawa ocorre o mesmo. Sempre que ocorre uma celebração, alguém empunha o sanshin e começa a tocar alguma coisa. E essa proximidade entre música e o dia-a-dia é que me chamam bastante a atenção. A musicalidade, a poesia e o clima festivo entre os dois povos se assemelham muito.

Yukihide Kanashiro & Yone Shinzato.

Agradecimento especial a Fundação Japão

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