Entrevista - Mayumi Teruya e Marcia Sinzato
Mayumi Teruya e Marcia Sinzato, apresentando os Diplomas que vieram do
Japão.

Mayumi Teruya e Marcia Sinzato, as mais novas professoras de
Odori

Elas são jovens, bem-sucedidas profissionalmente e se desdobram para conciliar a agenda lotada e o trabalho árduo. Típicas mulheres contemporâneas, que buscam a independência e, ainda, arranjam um tempo para fazer atividades paralelas à frenética rotina diária. Entre essas atividades está o Ryukyu Buyo, dança típica de Okinawa.

Márcia Sinzato e Mayumi Teruya, após anos de prática, receberam o título de professoras de Ryubu, no Hapyokai da professora Kazue Shiroma, realizado no dia 14 de março.

A partir de agora, ambas têm nas mãos todo um legado cultural a ser propagado às próximas gerações de descendentes. Conscientes dessa importância, Márcia e Mayumi, entre a correria da profissão e de apresentações esporádicas, procuram, na medida do possível, dedicar-se a uma ramo cada vez mais extinto no Brasil miscigenado em que vivemos: a dança tradicional típica, cultura herdada de seus pais e avós okinawanos.

Okinawa.com.br - Com quantos anos vocês começaram a treinar odori? E por quê? Por incentivo de quem?

Márcia Sinzato - Comecei aos 12 anos, no dojo da Arasaki Sensei. Fui incentivada pela minha mãe, que também praticou danças folclóricas quando jovem. Porém não imaginava que pudesse continuar dançando por tanto tempo. Acabei me envolvendo com a sinergia dos grupos com os quais tive o prazer de dançar e, posteriormente, o incentivo da professora Kazue Shiroma fez com que eu procurasse sempre descobrir algo a mais. Considero que seja a magia da dança, a superação dos próprios limites e o aperfeiçoamento.

Mayumi Teruya - Danço desde os três anos de idade e, segundo minha mãe, meu interesse pelo odori começou com as festas de casamento. Em todas as apresentações, eu prestava atenção somente no palco. Ficava tão “hipnotizada” com os kimonos e com as coreografias, que até esquecia de piscar. Eu não deixava ninguém ir embora até terminar todas as danças. Foi então que ela resolveu me levar até a academia da Arasaki sensei e fiquei fascinada!

Okinawa.com.br - Praticam (ou praticaram) algum outro tipo de atividade ligada à cultura de Okinawa? Qual?

Márcia Sinzato – Sim, pratiquei também o shamisen, outra arte que aprecio muito.

O interesse pela música de Okinawa (minyou) se deu a partir da própria dança. Ficava curiosa pelo instrumento, vendo os professores tocando enquanto dançávamos.

O minyou também me proporcionou a oportunidade de participar do Tozai Minyou Utagasen de 1997, em Okinawa.

Mayumi Teruya - Aos 14 anos comecei a praticar o taiko. Foi uma outra atividade pela qual fiquei maravilhada. Dividia-me entre as apresentações de odori e, no final, tocava taiko. Infelizmente tive que parar devido aos estudos e ao trabalho. O horário começou a ficar apertado e decidi que não podia mais fazer tudo de uma só vez.

Okinawa.com.br - O que significa o odori em suas vidas? Vocês o tratam como apenas um hobby ou procuram levá-lo mais a sério?

Márcia Sinzato – Inicialmente, o odori, para mim, representou a proximidade às nossas raízes, integração com a comunidade okinawana e a valorização de nossa cultura. Atualmente representa o canal/meio pelo qual fomos treinados para proporcionar conhecimentos e incentivar as demais gerações à prática da dança e às demais manifestações culturais. Pratico a dança como um hobby porque tenho prazer em dançar. Quanto a levá-lo a sério, entendo por praticá-lo com disciplina e responsabilidade.

Mayumi Teruya - Odori sempre foi um hobby para mim, mas com um significado diferente. Praticar odori não é apenas uma atividade para ocupar as horas vagas. É manter a nossa cultura, lembrar de Okinawa, conhecer nossa origem e de nossos antepassados, nossos costumes e valores, fazendo com que esta arte nunca seja esquecida.

Okinawa.com.br - Com o tempo, boa parte das dançarinas do Brasil acaba deixando o odori um pouco de lado por causa dos estudos ou do trabalho. Em algum momento vocês pensaram em abandoná-lo por causa de outras ocupações? Como conciliar tudo isso?

Márcia Sinzato – Atualmente, devido às atividades profissionais, não posso dedicar-me integralmente à dança. Mas sempre foi uma atividade que busquei conciliar. A professora Kazue Shiroma sempre nos acompanhou e apoiou nos momentos mais difíceis de nossos estudos e trabalhos.

Mayumi Teruya - Abandonar não diria, mas admito que os treinos já não são tão freqüentes assim. Sinto que deveria dedicar mais tempo para o odori, mas no momento existem certas prioridades que devem ser consideradas como, por exemplo, minha tese que apresentarei em junho para a conclusão do MBA em Negócios Internacionais e E-business.
Conciliar é difícil, mas não é impossível. Tento planejar todas as atividades da semana para aproveitar todos os minutos do dia e, sempre que posso, compareço aos treinos e participo de algumas apresentações. Mas acredito que nunca deixarei de dançar. A professora Kazue Shiroma sempre foi muito compreensível quanto aos nossos compromissos, respeitando sempre o tempo de cada uma.

Okinawa.com.br - Em relação ao futuro do odori, o que vocês pretendem fazer para manter vivas as tradições de Okinawa no país? Pretendem, cada uma, abrir o próprio dojo? Planejam algo de especial para os 100 anos da imigração japonesa no Brasil?

Márcia Sinzato - Pretendo aprender e treinar sempre, auxiliando a professora Kazue Shiroma. Quanto a abrir um próprio dojo, ainda é muito cedo. O trabalho de uma professora de dança exige muita dedicação e esforço, focados para que a atividade possa se concretizar com sucesso. Tenho certeza que, durante a comemoração dos cem anos de imigração japonesa, teremos uma maravilhosa festa com a participação de todas as províncias e certamente estaremos lá, para uma grande apresentação.

Mayumi Teruya - Continuar dançando, incentivar outras pessoas a praticarem o odori e levar esta arte milenar para os que ainda não conhecem já é uma forma de mantermos a cultura viva em nosso país, fazendo com que desperte o interesse em todos. Quanto a abrir um próprio dojo, ainda não tenho planos no momento. Acredito que poderei pensar em lecionar quando estiver realizada profissional e pessoalmente, ou seja, quem sabe quando me aposentar?
Para os cem anos de imigração, ainda não temos planos concretos. Certamente prepararemos algo especial e, seja o que for, faremos com imenso prazer.

Colaborou: Yone Shinzato, aluna do terceiro ano de jornalismo da PUC-SP.


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