Também somos vítimas das mazelas da II Guerra Mundial

Sônia Fumie Yoshimura – Bacharel em Ciências Econômicas

Partindo do ponto comum que espero nos unir, somos filhos, netos ou bisnetos de okinawanos, grande contingente deles foram avassalados física, emocional e moralmente pela II Guerra Mundial. Sem falar no caráter econômico já precário anteriormente a Guerra, fato que fez com que muitos okinawanos emigrassem para outros países, incluindo, é claro, o Brasil.

Os sobreviventes da Guerra, geralmente carregam sua dor numa forma que lhes permitam lutar para sobreviver. Condição ou meta inferior a viver plenamente. Carregados pela ansiedade e vivendo a vida pela meta, caracterizando uma condição psíquica chamada de stresse pós-traumático.

Podemos explicitar esse estresse pós-traumático ao ouvirmos intermitentente relatos de como os okinawanos sofreram no período bélico e pós-bélico. Foi muito difícil e doloroso reorganizar a vida cotidiana , tendo em frente tanta destruição e a ausência de muitos dos patriarcas.

Viver é evitar sofrer, quando na verdade, podemos e devemos almejar a felicidade. A felicidade é uma condição imprescindível para o cotidiano. Podemos procurar e viver com alegria os acontecimentos cotidianos ou cerimoniais da vida.

Precisamos entender que os nossos pais desejam o melhor para os seus filhos, entretanto, eles próprios sentem-se desamparados até hoje. Toda essa neura descarrega-se sobres seus entes familiares cortando-lhes muitos desejos, sonhos, desde a mais tenra idade. Essa educação é caracteristicamente castradora.

Exemplo de uma educação castradora ficaria explícita se comparada à criação de um cachorrinho de um dos meus irmãos. Havia um cercado de bloco que media cerca de 50 centímetros e extensão de 20 X 50 metros, nele seu cachorrinho foi colocado para dar-lhe proteção, pois era um filhotinho. Certa vez ele subiu na mureta e caiu e ficou muito aterrorizado. Depois de crescido, meu irmão queria que ele saísse daquele confinamento, o cachorro nunca mais quis sair de lá, pois tinha medo de cair da mureta. Seu mundo resumia-se ao cercado de 20 X 50 metros.

O nosso intelecto, emoções e instintos precisam estar equilibrados, por pena de viver a vida pela metade. É fácil perder a identidade, faltar auto-estima para procurarmos e estarmos cientes do direito de sermos capazes.

É comum que pais okinawanos desaprovem muitos dos nossos sonhos e objetivos por medo de que soframos e eles também, caso falharmos. O risco é algo que não existe para ser corrido para os nossos pais, resignar-se é algo muito abrangente em seus viveres.

A frustração muitas vezes é decorrente do resignar-se. A percepção errada leva qualquer ser humano a uma conscientização disforme da situação, dos acontecimentos da vida. Decorre, então, de muitas vezes serem tomadas decisões, atitudes que não solucionam satisfatoriamente os acontecimentos.

A religião “okinawana” satisfez e ordenou a sociedade de maneira que inseria uma identidade e uma funcionalidade em cada indivíduo, família, comunidade dentro do país Okinawa de outrora.

Existem coisas que mudam com o tempo e coisas que não mudam com o tempo.Através dessa máxima das religiões orientais ou mesmo da física quântica e filosofias antigas, podemos entender que é possível e necessária à quebra desse ciclo de desentendimentos entre antigos e atuais.

É preciso dialogar, conversar com os mais velhos num clima de abertura para ambas as partes. Só assim poderemos mudar para melhor, cada ser humano é único e possui valor e deve ser respeitado e respeitar o próximo para que possibilite ser respeitado.

Numa família cada componente humano tem seus direitos e obrigações. Sendo comum, na família tradicional okinawana a castração como já relatei, nesse ambiente é preciso que os filhos se permitam o direito de sua individualidade, ao mesmo tempo em que deixa explícito seu respeito e gratidão pelos mais velhos.

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