AS OLIMPÍADAS PASSARAM, O PAÍS NÃO!

Silvio Sam, arquiteto e escritor. Autor do livro "Sonhos que de cá segui".
www.silviosam.com.br

Silvio Sam

As Olimpíadas já são coisas do passado. Mas, durante a mesma, uma grande manifestação de ufanismo chegou a ser ensaiada no país por conta de algumas medalhas de ouro consideradas conquistadas por antecipação. Senão, vejamos: Daiane na ginástica, Honorato no judô ou o vôlei de quadra feminino, frustrações essas que, de repente, quase tiveram as honras salvas pela conquista de outros inesperados, como no futebol feminino ou na maratona (pelo novo herói nacional, Vanderlei Cordeiro de Lima). As manchetes dos jornais, logo após o encerramento dos jogos, chegaram a dar destaque por ter sido a melhor campanha de todos os tempos, os patrocinadores louvaram seus atletas e as carreatas sobre carros de bombeiros eram sempre acompanhadas de multidões. Imagine como seria se confirmássemos aqueles favoritos acrescidos dos inesperados, totalizando nove medalhas de ouro!! Isto é, as 4 realmente conquistadas, mais as 5 citadas!! Já imaginou? Seria uma loucura!

Mas também... uma grande ilusão!

Que foi nossa melhor campanha não há como contestar. Os números confirmam isso. Também pudera, porque os números do passado é que sempre foram ridículos. Não vamos nos iludir. Claro que não se pode tirar o mérito dessa conquista e nem deixar de louvá-la. Mas a proporção de medalhas conquistadas em relação ao tamanho da população também é um dos itens que refletem a realidade sócio-econômico e cultural de um país. Fernando Rodrigues, colunista da Folha, lembrou bem esse fato em um de seus artigos (“Êta esquadrão de ouro”), logo após os jogos, vinculando-o à uma falsa auto-estima (clima de injustiça?) criada pela derrota de nossa seleção feminina de futebol para a americana. Rodrigues, no fundo, queria mostrar que alguns resultados são apenas aparentemente inexplicáveis, ainda mais em país onde o item injustiça social faz parte do dia-a-dia. Por isso, talvez seja mais justo chamarmos os nossos atletas de heróis. Todos eles. Porque, chegar aonde chegaram com toda a falta de apoio e estrutura que sempre tiveram só mesmo sendo especiais.

De qualquer forma, esses heróis comprovaram que o resultado poderia ser outro, melhor até do que as nove medalhas aludidas... se a condição sócio-econômica e de justiça social do país fosse outra. Quantos excepcionais atletas não perdemos todos os anos em função da luta pela sobrevivência, pela falta de oportunidade? Aliás, mesmo nesses jogos, e mesmo assim, quantas medalhas deixamos de ganhar por um triz? As que perdemos, igualmente por um triz, não devemos lamentar pelas mesmas razões citadas. Mas essa situação pode ser revertida, sem utopia, mesmo que a longo prazo. E com nossa ajuda. O primeiro passo para esse objetivo já pode ser dado nas próximas eleições ao votarmos em candidatos realmente idôneos, capacitados, transformadores. É chegada a hora de levarmos a sério esse dever cívico-cidadão e contribuirmos para transformar essa nação em uma razão de orgulho real (sem falsa-ilusão). Não é difícil. As medalhas virão naturalmente... e merecidas. Além de podermos ostentá-las em nossos peitos também.

Sílvio Sam, silviosam@nethall.com.br

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